segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 43 - Por Luiz Domingues

A seguir, vinha um samba-de-breque, daqueles bem tradicionais, estilo Moreira da Silva, velha guarda carioca etc.

Chamava-se "Samba do Inferno" e brincava com a Divina Comédia de Dante Alighieri, fazendo piadas políticas daquele momento de 1983-1984. 

Claro, quem faz música satírica, sabe (perguntem ao Juca Chaves...), que a data de validade das músicas é limitadíssima. 

Rapidamente fica anacrônica. e tempos depois, perde o imediatismo da situação. 

Quando é necessário explicar a piada no contexto do seu tempo, perde mesmo a graça, e fica apenas objeto de estudiosos, musicólogos e/ou preservadores/resgatadores de matéria cultural.

Mas, claro, compositores como Laert Sarrumor, Carlos Mello e Guca Mastrodomênico, entre os principais compositores do Língua, sabiam disso muito bem, e certamente não se preocupavam com a vida curta das piadas, produzindo sempre novidades frescas ao sabor das atualidades, principalmente no mundo sociopolítico.

A interpretação desse "Samba do Inferno" era aquém das anteriores no quesito performance, figurino ou efeitos especiais. Mas a letra da música tinha seus bons momentos de tiradas políticas pertinentes à sua época.

"Samba do Inferno" (Carlos Mello - Lizoel Costa)

Um belo dia, depois do expediente
Quando eu botava no cabide o meu terno
Tive um mau súbito, morri de-repente
Indo parar nas profundezas do inferno

Passei no céu, mas resolveram me barrar
Burocracia lá no céu é o que é que há
É que eu morri sem preencher regulamento
Que dá direito a residir no firmamento

Levei cartão, ganhei status de banido
Pois me levaram direto pro purgatório
Um anjo disse: "Faça um último pedido"
Lhe perguntei onde é que fica o purgatório

Fui sem escalas lá pros quintos dos infernos
Onde Satã me fez assinar um caderno
E disse: "Nego, tudo aqui é organizado"
Teve um rebu, agora tudo é estatizado

Lá no Inferno, todo mundo come alcatra
Só dá ministro, e presidente de nação
Tá entupido de fãs do Frank Sinatra
E de apresentadores de televisão...


Tem ruas largas onde até um jato pousa
A maior delas chama Anastácio Somoza
E adivinhe quem por lá comanda a plebe
É o Adolfinho com o Xá Reza Pahlevi

Lá no inferno, as mulheres andam nuas
Mostrando tudo, até o fruto proibido
Mas seu Satã ferra com a gente, senta a pua
É que no inferno nem um homem tem libido

Ontem eu fugi pro paraíso com um sujeito
Que fez o mapa do inferno pelo jeito
Diz que é poeta e cheio dos guéri-guéri
Seu nome acho que é Dante Alighieri...

Continua...

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