segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 42 - Por Luiz Domingues

A próxima música era "Benzinho". 

Tratava-se de uma canção bem na onda da Jovem Guarda, com o Laert bregalizando tudo nos trejeitos, da mise-en-scené e na interpretação, sobretudo.

Como já falei, entrávamos com um ridículo paletó cor de abóbora, e um corte "futurista"que suscitou dúvidas da costureira, que sempre perguntava nas provas que fazíamos : "Tem certeza de que querem assim mesmo ?" Era medonho, e claro, proposital, cenicamente falando.

A letra, claro, era absurda, e ironizava a sexualidade, com analogias explícitas à política econômica da época.

Eis a letra :

Benzinho (Carlos Mello / Laert Sarrumor)

Benzinho, minha sexualidade
De fato é bem pior que a do Marquês de Sade
Me dá a tua mão, que eu quero amputar
Põe aqui o teu pescoço, que eu vou guilhotinar

As formas ortodoxas de conseguir prazer
Estão mais ultrapassadas do que motor de DKW
Por isso mete bronca, não banque a demodeé

Benzinho, que louca perversão
Não posso ver Lolita, me dá logo emoção
Se sou incestuoso, mamãe é que é culpada
Quando fiz 5 anos, passou-me uma cantada

Antigamente, eu era um libertino matusquela
Minha vida mudou ao ler o fórum da Ele & Ela
Hoje pedofilia, pra mim é uma balela

Benzinho, não me julgue um palerma
Só quero te afogar num mar de sangue e esperma
Arranca a minha unha, provoca um hematoma
Como nos 120 dias de Sodoma

Em termos de sacanagem
Eu só conheço a teoria
Pois quem domina o assunto,
Principalmente a sodomia

Não sou eu nem tu, benzinho
São os ministros da economia...


O final levava o público ao delírio, pois o Laert fazia gestos para reforçar o conceito do que a política econômica fazia com, digamos, a "poupança" do povo...

Inacreditável a censura ter liberado à época, não só pelas citações de tabus morais, mas também e principalmente pela explícita provocação à equipe econômica do governo Figueiredo.

Era um grande momento no show.

Continua...

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