sábado, 31 de agosto de 2013

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues

Eu acho que se a língua oficial deste país é o português, não há justificativa para cantar-se em inglês, a não ser que um artista tenha planos de carreira internacional. A ideia inicial do Pitbulls era um lugar ao sol na cena nacional, portanto, na minha avaliação, deveria cantar em português. Mas as composições eram do Chris, e ele sempre escreveu em inglês, pois fala fluentemente, morou em Londres por muitos anos, e tocou numa banda famosa da cena punk de lá, o Cock Sparrer.
Chris Skepis fala com sotaque britânico, cockney, e alega que escrever letras em inglês, é muito mais fácil do que português.
Outro dado da época, é que no início dos anos noventa, havia uma cena, principalmente em São Paulo, de bandas cantando em inglês, e fortemente influenciadas pelo Grunge de Seattle. O Pitbulls no seu início, fez inúmeros shows com bandas dessas características.
O fenômeno "Raimundos" foi algo fora desse contexto, e atropelou essa cena de bandas cantando em inglês. 
Na segunda foto, um click proveniente da primeira sessão promocional feita pela banda, em abril de 1992. Foto : Maura Cardoso
 
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Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 2 - Por Luiz Domingues


Em janeiro de 1992, recebi o telefonema do Chris Skepis, falando-me de sua intenção de formar uma nova banda de som autoral, onde dizia já ter um material grande composto, e que estava com dois outros músicos já contactados : outro guitarrista, e um baterista. Mostrei-me interessado em conhecer o trabalho, e marcamos um ensaio num estúdio perto da Estação Santa Cruz, do Metrô. Chegando lá, gostei do astral dos rapazes.
O baterista, Juan Pastor, era estudante de jornalismo, e estagiário na rádio 89 FM, que à época, era a principal rádio Rock de São Paulo.
E o guitarrista, chamado Luciano Curvello Cardoso, apelidado, "Deca", que havia morado muitos anos em Madrid, e na volta à São Paulo, havia passado por uma banda Pop Rock sem grande relevância (chamada "Trama"). Minha primeira impressão do som, era que pretendiam fazer um som indie, mas não descambando para aquelas esquisitices peculiares desse espectro. O guitarrista Deca tocava de forma bem Rock'n'Roll tradicional, com muita influência de AC/DC, e o Chris, apesar de insistir em roupagem moderna, era expert em Rock 1960 / 1970, com uma coleção de vinis gigantesca, inclusive, e uma enorme coleção de Bootlegs dos clássicos. Só de Stones, ele devia ter uns 100 discos piratas, perfazendo um material incrível. Gostei do astral dos rapazes e apesar de não ser o som dos meus sonhos, eu estava há bastante tempo sem um trabalho fixo autoral. Sendo assim, logo no primeiro contato, aceitei a oferta e formou-se aí o Pitbulls on Crack. Mas o nome só veio algum tempo depois. Mais ou menos em março de 1992, é que mediante uma lista e votação, decidiu-se por esse nome. 
A ideia original saiu de uma foto que o Chris viu numa revista americana, onde Steven Tyler (vocalista do Aerosmith), aparecia com uma camiseta, cuja estampa tinha essa frase. Particularmente, achei feio e votei contra, mas os outros nomes propostos eram ainda piores, como "Clap Queen" (Rainha da gonorréia), e outros piores. A intenção era mesmo ser em inglês e ser agressivo, ultrajante. Nada a ver comigo... mas...
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Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 1 - Por Luiz Domingues



Começo aqui, uma nova etapa da narrativa. Vou contar a minha história do Pitbulls on Crack, banda na qual passei quase os anos noventa, inteiros. Bem, no caso do Pitbulls on Crack, foi minha volta a uma banda, depois de um hiato de quase três anos, após ter saído da A Chave / The Key, em 1989. Depois disso, fiquei até o início de 1991, fazendo trabalhos avulsos, entrando em projetos que não evoluíram, e até show tributo realizei. Paralelamente, dedicava-me às aulas de baixo, que ministrava desde 1987. E foi nesse show tributo que fiz em 1990 ("Electric Funeral", um tributo ao "Black Sabbath", episódio relatado no capítulo dos "Trabalhos Avulsos"), que conheci o vocalista / guitarrista / compositor, Chris Skepis.
No início de 1992, ele convidou-me a integrar uma nova banda que estava formando, e eu aceitei a empreitada, pois a proposta era totalmente diferente de tudo o que eu realizara anteriormente, e achei que fazendo algo na contramão de minhas idiossincrasias, poderia colher frutos mais saborosos do que eu havia colhido com A Chave do Sol, na década de 1980. Se encaixava-me musicalmente ? Acredito que dois fatores incentivaram-me, a aceitar entrar nessa banda: 

1) A proposta acre do som, direcionando para o lado oposto de tudo o que eu acreditava, ou seja, a aposta no som que potencialmente agradaria o tipo de crítico musical, que pensa o contrário de minhas convicções, e; 

2) O fato dos rapazes serem absolutamente divertidos. O Pitbulls foi a banda onde mais ri, pois ninguém falava sério ali. Era um show de sarcasmos, piadas, imitações, ironias...
Nos cinco anos em que lá toquei, lembro-me de um ou dois climas tensos, no máximo. Foi uma banda desopiladora de fígado...
 
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues


Realmente...a filtragem era necessária, mas sem maiores rigores. 

Mesmo porque, não haviam meios para filtrarmos ainda mais. Era simples: Se demonstrasse interesse na carta, falando que queria tocar, ou que tinha uma banda, era o suficiente para nós.

Tive uma sensação muito estranha na primeira aula. Isso porque em 1983, eu tinha tido uma experiência como professor, mas de forma diletante. 

Dei algumas aulas de teoria musical para um guitarrista de uma banda, que gravitava na órbita da Chave do Sol (Archibald's Band, e que posteriormente mudou seu nome para "Fênix"), chamado Iran Bressan. Foram poucas e gratuitas.
 
Agora, era diferente, pois estava cobrando, e assim tinha a responsabilidade de passar informações com conteúdo.

Posto isso, digo que a primeira aula foi muito estranha, pois havia caído a ficha de que estava me assumindo como professor, e era algo inusitado na minha vida.

Para efeito de informações deste relato, devo alertar o leitor que, infelizmente, perdi o meu caderno de anotações sobre as aulas. 

Da maioria dos alunos, eu simplesmente esqueci seus nomes e datas precisas de seu início e término de aulas comigo.

Peço desculpas antecipadas à todos que não mencionarei nominalmente neste relato, por essa falha. Citarei alguns que foram mais marcantes, histórias engraçadas e/ou inusitadas, mas ficarei devendo o nome da maioria.



E em alguns casos, citarei apenas nome; ou sobrenome ou ainda, talvez só um apelido, fruto dessa perda lastimável de meu caderno, que muita falta me faz agora que trato deste capítulo da minha sala de aulas.

Lembro-me que as primeiras aulas em julho de 1987, foram ministradas no escritório do Zé Luis Dinola, em Pinheiros, onde ele também dava suas aulas de bateria.
A fachada do Edifício Dinola, pertencente à família do José Luis. Na frente, a loja de produtos finos de cerâmica e porcelana, da irmã dele. Numa das salas, ficava o escritório do José Luis Dinola.


Mas logo em agosto, mudei-me para a casa do Beto Cruz, tornando assim esse endereço, a minha a sala de aulas, até meados de 1989.


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Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 2 - Por Luiz Domingues

Com o tempo, criei exercícios, e uma sequência de músicas que ia aumentando o grau de dificuldade, à medida que os garotos avançavam.

Além das lições de música, acabei me tornando também, conselheiro; psicólogo prático; conselheiro matrimonial; amigo, e em alguns casos, amigo de alguns pais.

No início, nesse período entre 1987 e 1990, principalmente, 99 % dos alunos tinham orientação de Heavy Metal ou Hard Rock oitentista.
Só a partir de 1992, foi aparecer uma nova safra, com garotos muito interessados em Rock 60/70, principalmente, e claro que era um alívio para mim, pois essa é a minha praia...

Fui dando aulas na base da intuição, mesmo porque, cada garoto era um caso diferente, pois nem todos estavam na estaca zero.
Logo de cara, aprendi que na primeira aula precisava avaliar o aluno, para ver em que estágio ele se encontrava. Isso virou uma praxe que levei por 12 anos.

Os primeiros que apareceram em 1987, eram mais rodados, não eram novinhos. Então, já parti de uma etapa mais avançada.
 
E antes de prosseguir, preciso recuar um pouco no tempo para dizer como anunciei pela primeira vez que ministraria aulas.

Foi através de uma matéria na revista "Metal" (edição n° 37, de 1987), onde o jornalista Sérgio Martorelli dava as últimas notícias sobre a banda, onde disse que eu, Beto, e Zé Luis Dinola, estávamos ministrando aulas.
 
Como maneira prosaica de contato, saiu a caixa postal da banda...
 
Dessa forma arcaica, ficávamos esperando cartas de interessados, e só aí ligávamos para eles. Se fosse hoje em dia, com internet e baseado na fama que a banda tinha, arrumaríamos dúzias de alunos, mesmo porque, na base do contato paleolítico que tínhamos, muitos surgiram, interessados nos três "professores".

Daí o fato de filtrarmos primeiro os interessados, antes de marcar aula, e fornecer endereço. 

Muita gente só queria conhecer, pedir discos etc.
Agora, como triagem, não haviam frescuras maiores. Líamos as cartas dos interessados e os que demonstravam realmente interesse em aulas, eram contactados por telefone, ou mesmo por resposta via carta. Tempos paleozóicos...

 Continua...

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 1 - Por Luiz Domingues




Uma etapa muito diferente na minha trajetória, iniciou-se no segundo semestre de 1987.

Sendo assim, minha atividade como professor, aconteceu paralelamente ao fim das minhas atividades com "A Chave do Sol"; atravessou o limbo em que fiquei entre 1989 e 1991; passou pelo "Pitbulls on Crack" (onde teve seu apogeu com a formação de meu exército de "Neo-Hippies" ); viu a formação do "Sidharta", e se encerrou, logo que eu ingressei na "Patrulha do Espaço". 

Resumindo, dei aulas de julho de 1987, a abril de 1999. 
Com 12 anos de aulas, acumulei muitas histórias, e procurarei lembrar delas, neste capítulo.
 
Comecei por necessidade, pois "A Chave do Sol" estava num período muito difícil na metade de 1987, e nessa perspectiva sombria, precisei criar uma fonte de renda alternativa. 



No início, comecei a ministrar aulas no velho escritório onde funcionou por anos o fã-clube da Chave do Sol, na Rua dos Pinheiros, no bairro de mesmo nome, na zona oeste de São Paulo.

Mas isso durou pouco, pois o espaço estava compartilhado gentilmente peço seu dono, Zé Luiz Dinola, onde também ministrava suas aulas de bateria, mas não comportava outra agenda, no caso, a minha.

Fiquei ali por um mês apenas, e minha primeira aula foi para um rapaz chamado Zé Roberto, que demonstrava ter um nível avançado, e eu não tinha muito o que lhe ensinar, portanto.

Esse rapaz ficou nas minhas aulas por dois meses aproximadamente, apenas.

Tive que buscar outro espaço, e daí, o mais lógico foi ter aceito o convite do vocalista da Chave do Sol, Beto Cruz, que também estava iniciando atividade como professor, ministrando aulas de guitarra e vocalização, para ministrar minhas aulas de baixo em sua residência, visto que os ensaios da banda também haviam sido transferidos para tal local, e meu amplificador ficava ali alojado.


Ele morava no bairro Jardim Bonfiglioli, na zona oeste de São Paulo. 

Para quem não conhece São Paulo, eu situo o bairro como vizinho do bairro do Butantã, perto do Instituto do mesmo nome, e do campus principal da USP, a Universidade de São Paulo.

Era conveniente assim, pois todo o equipamento da banda estava lá, visto que estávamos ensaiando ali desde o início de 1987. 

Como eu não tinha nenhuma formação teórica mais avantajada, além do mínimo necessário, passei a desenvolver um método próprio, baseado em minha formação de Rock 60/70. 

Meu método, forjado de forma natural, era 90 % baseado no desenvolvimento do feeling do aluno, e com duas características que são minhas, naturalmente: a paciência, e o incentivo a cada progresso, por mínimo que fosse. 

Talvez por isso, mesmo sendo um professor despreparado teoricamente, eu acabei tendo essa longevidade como educador informal, pois sempre respeitei o limite de cada um, sem cobranças ou constrangimentos, como muitos professores costumam exercer em sua didática, mais baseada em desafios.
 Continua...

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 13 - Por Luiz Domingues

Primeira foto da banda, publicada na imprensa grande
 

Então, a boa nova que a dona Sabine nos deu, foi que ela tinha um contato no jornal "Folha da Tarde" (que hoje em dia se chama "Agora"). 

Dessa forma, os shows dos dias 22 e 23 de outubro de 1982, tiveram o reforço de uma mini entrevista com direito a foto, um marco para uma banda com tão pouco tempo de vida.

Fomos à redação do jornal (que pertencia à Folha de São Paulo), na Rua Barão de Limeira, em Campos Eliseos, zona central de São Paulo, e fomos fotografados lá, in loco. 

Já como trio, sem a ilusão de contar com Percy Weiss, e uma particularidade pessoal: é a única foto em que estou "barbudo" no portfólio inteiro da Chave do Sol. Estava cultivando uma barba cerrada, há semanas, e no início de 1983, cortei-a.

Infelizmente, essa matéria não surtiu efeito prático na bilheteria dos dois shows, o que era absolutamente previsível. 

O importante, é que essa foi a nossa primeira matéria publicada em jornal de grande circulação, e somados aos quatro shows que havíamos feito, além de uma aparição relâmpago na Globo, era uma somatória muito animadora para nós que éramos garotos, e em tão pouco tempo de atividades.

Enquanto isso, novas músicas iam surgindo: "Luz", um Rock'n'Roll tradicional, com letra mezzo esotérica, cujo teor quase ninguém percebe, e "Intenções", um Jazz-Rock com letra evocando a ecologia. 
"Luz" seria o carro-chefe do nosso primeiro compacto, lançado em 1984, e "Intenções" nunca foi gravada, embora eu a considere uma música muito boa, e que deveria ter sido gravada.

Fora disso, ainda tínhamos a meta de arrumar um vocalista para tornar a banda, um quarteto. 

Foi quando o Rubens teve uma lembrança de uma pessoa que já havia visto cantar. Ele sugeriu, e surgiu uma pequena polêmica, por conta do inusitado dessa pessoa.

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 12 - Por Luiz Domingues



Conforme disse no final do último trecho de meu relato, ficamos quatro dias interpretando aquele convite do Percy como uma real possibilidade dele ter gostado da banda, e estar delineando-se então, a sua entrada oficial como membro.

Não pensávamos nessa questão da banda ser conhecida como "a banda do Percy", como hipótese, caso isso se concretizasse. 

Contávamos sim, em ter um grande vocalista, com muito mais curriculum, e bagagem do que nós, mas sem achar que ele nos ofuscaria nesses termos, pois tínhamos confiança no potencial da banda.
Então chegou o dia da apresentação no bar 790 (que aliás, havia mudado o seu nome para: "Pierrot Lunar").
 
Apesar de ser uma quarta-feira, a casa estava lotada, pois se tratava de uma festa fechada. 

No intervalo da apresentação da banda cover, entramos e tocamos 4 músicas, infelizmente só covers, pois o Percy queria estar o tempo todo no palco, e nossa única música própria, era a instrumental "18 Horas".

E quando estávamos para entrar no palco, notamos um pequeno alvoroço na casa. Quando nos demos conta, era uma equipe de filmagem da TV Globo, e o apresentador Goulart de Andrade, que fazia enorme sucesso naquela época, com seu "Comando da Madrugada". 
Ele filmou um pouco "A Chave do Sol" tocando e entrevistou algumas pessoas presentes.

Os membros da banda "Áries", ficaram revoltados, pois a equipe da Rede Globo, filmou bem na hora em que estávamos nós no palco, e não eles, e pior: usando o equipamento deles...

Depois que tocamos, o Percy agradeceu a nossa participação e nos disse que achava a banda legal, mas tinha outros projetos etc etc.

Ficamos resignados, pois apesar de nutrirmos esperanças, esse era um desfecho previsível.

E essa foi a nossa primeira aparição na TV, embora não a tenha no meu acervo. Aliás, mais da metade das nossas aparições foram perdidas, infelizmente. Mas isso é assunto para outra hora. 
Aparecemos então na Globo, no sábado subsequente, mas sem citarem o nosso nome e tocando "Black Night", do Deep Purple.

Em uma semana, foram dois shows, e uma aparição na TV, convenhamos, nada mau para uma banda que começara menos de um mês antes !

Animados, saímos marcando mais shows, e assumindo o Rubens como vocalista, pelo menos até quando encontrássemos um especialista para a função.

Seguiu-se então mais dois shows no Café Teatro Deixa Falar, nos dias 22 e 23 de Outubro de 1982, desta vez sem o impacto inicial da estreia, e com público reduzido: 10 pagantes em cada dia...

Mas ainda em outubro, uma boa nova proporcionada pela Dona Sabine...



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