domingo, 14 de julho de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 32 - Por Luiz Domingues

E chegou o grande dia da estreia !!

Antes de falar disso detalhadamente, preciso contar coisas paralelas.

Primeiro, alguns dias antes, tive que administrar o primeiro conflito Língua de Trapo x Chave do Sol. 

É que para a sorte da Chave do Sol (que ascendia a olhos vistos, graças as performances vitoriosas em duas edições do programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura), a banda recebeu o convite para participar de uma edição especial do programa, onde supostamente os artistas mais pedidos tocariam numa edição especial, numa grande festa no Circo Anhembi, no pátio do pavilhão de exposições do Anhembi.

O que eu não esperava, era a data da gravação desse programa especial : 15 de novembro, dia da estreia do novo show do Língua de Trapo no TUCA...

Já tornara-se um "clima" explicar que eu tocaria no mesmo dia, e pior ainda sabendo que mesmo me esforçando para tocar com a Chave, e ir voando para o Tuca, evidentemente estaria sujeito a atrasos, visto que não haveria nenhuma garantia de que tudo funcionasse a contento na gravação da TV Cultura.

E mesmo que tudo ocorresse dessa forma, o Circo Anhembi ficava montado no pátio do Anhembi, na zona norte, e o deslocamento até o Tuca, nas Perdizes, zona oeste, seria temerário pela questão do trânsito etc e tal...

Os "Línguas" aceitaram, pois sabiam que era importante para A Chave do Sol, e não queriam me contrariar logo de início, mas ficaram apreensivos.
E tinham toda a razão, pois não era um show comum (e mesmo que fosse...), mas sim uma estreia de um show inteiramente novo, e onde haveria um grande público, com a presença de importantes jornalistas para cobrir o novo trabalho do Língua.
  
Isso sem contar a imprudência em não estar tranquilo, pelo menos duas horas antes no camarim, sabendo que a parte técnica estava sob controle com seu amplificador, seu baixo afinado etc etc...
Eles tinham toda a razão em se preocupar, mas eu não poderia recusar o convite, pois A Chave do Sol estava crescendo, e não poderia perder mais essa chance na TV, com uma audiência daquelas...


O segundo aspecto em relação à este show, era o próprio teatro em si. 

O Tuca, era o Teatro da Universidade Católica, anexo ao campus da Pontifícia Universidade Católica.

Foi um teatro histórico para São Paulo por muitos anos, com uma infinidade de peças teatrais importantes ali encenadas; shows musicais de grandes artistas da MPB; Rock, e outras vertentes musicais (o famoso show "Divino e Maravilhoso"dos Tropicalistas em 1968, só para citar um...), além de uma série imensa de palestras, congressos e eventos em geral. 

Mas aí veio a ditadura, e as manifestações estudantis no campus da PUC, começaram a ser reprimidas. 

Em 1977, num dos mais truculentos episódios dessa fase, o campus foi invadido pela tropa de choque da polícia militar, e o pau comeu, com dezenas de feridos, inclusive alguns com muita gravidade (eu conheci uma garota que sofreu queimaduras terríveis nesse dia). 

Tempos depois, o teatro pegou fogo, "misteriosamente". 

Ficou anos fechado, e num esforço muito grande, finalmente, mesmo ainda não concluída a sua reforma completa, foi liberado para abrir suas portas novamente. 

E qual artista teria essa honra de estar no primeiro espetáculo após esse hiato ? 

Sim, era o Língua de Trapo, nesse show de 15 de novembro de 1983...

E como agravante, ainda estávamos na ditadura, e o Língua de Trapo tinha uma imagem de "esquerdista". 


Boatos alarmistas diziam que haviam pessoas descontentes com a reabertura do teatro... 

Não aconteceu nada, mas mesmo enfraquecida e quase acabando, a ditadura sempre era ameaçadora no tocante ao exercício da livre expressão artística.

Então, era esse o ambiente para o show, com toda a apreensão do Língua pela estreia; esse temor velado por causa do Tuca ser reaberto para o descontentamento de alguns saudosistas da Arena, e o stress a mais que eu causei, ao assumir um compromisso com outra banda, no mesmo dia da minha estreia oficial na banda.

Havia, portanto, tensão no ar...
Continua...

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