terça-feira, 30 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrèbach - Capítulo 57 - Por Luiz Domingues

O Boca do Céu tem um significado muito especial para mim, conforme já disse anteriormente.

Apesar de ser tecnicamente uma banda de parcos recursos, pelo fato de seus membros serem iniciantes na música naquela ocasião (principalmente eu mesmo).

E certamente por isso, é que tem esse valor sentimental enorme para mim.
Foi a banda que concretizou o sonho primordial, tirando-me do onírico infanto-juvenil, e jogando-me na realidade da música.

Tenho muito carinho por esse tempo primordial, por tudo o que vivi, e não foram poucas as impressões e vivências; era o meio/final dos anos setenta, e ainda tive o privilégio de pegar o finzinho de uma Era.
Hoje, contando essas reminiscências minhas, vejo muitos jovens de olhinhos brilhando com meus relatos, e fico contente por ter vivido essas coisas na música, Rock em específico.

Tenho carinho também pela minha tenacidade juvenil. 

Esse entusiasmo, essa convicção e força de vontade, fizeram de mim um músico de fato. 

Se fosse por vocação, aptidão natural, ou ouvido musical, jamais conseguiria.

Eu só tornei-me músico, e construí uma carreira com 14 discos lançados no mercado (na somatória de todas as bandas e em breve, 2013, entrarei em estúdio para gravar o 15°), porque tinha uma vontade ferrenha. 

E o Boca do Céu teve esse papel de mola propulsora inicial, e fundamental.

Mesmo sendo uma banda formada por jovens sem condições técnicas ideais para começar um trabalho autoral (com exceção do guitarrista Osvaldo Vicino, que já tocava), acho que essa força de vontade não era exclusividade minha, e nós tivemos essa vontade coletiva, conseguindo sair da inércia inicial, levando a banda para patamares muito significativos, em se considerando as condições dela, tecnicamente, e pela ingenuidade de seus membros.

O fato de termos tocado em festivais, principalmente o FICO, com direito à transmissão televisiva, foi uma grande vitória coletiva, que eu particularmente, me orgulho. 

Sei que o Laert pensa o mesmo e acho que o Osvaldo também, para citar os dois que tenho contato até hoje (recentemente, retomei o contato com Fran Sérpico, também). 

Sou muito grato ao destino, que numa improvável ação de um anúncio classificado numa revista, colocou o Laert no nosso caminho. 

Com sua inteligência, e talento nato, impulsionou a banda.
Sem ele, não teríamos evoluído tão depressa. 

Claro que o grosso do material composto, era aquém do que faríamos no futuro, tanto eu quanto o Laert, mas chegamos a ter músicas interessantes, apesar de sermos tão fracos tecnicamente.

Músicas como "Revirada"; "No Mundo de Hoje"; "Centro de Loucos"; "Serena"; "Diva", "Na Minha Boca" e "Instante de Ser", tinham qualidade, em se considerando as condições.
Anos depois, "Na Minha Boca" e "Instante de Ser" entraram para o repertório do Língua de Trapo, e fizeram sucesso nos shows, por exemplo.

Tenho saudade desse tempo pelos shows que assisti.Pelas andanças por teatros; salas de cinema; exposições; museus; palestras...
Foi uma época em que fui um consumidor voraz de cultura em geral, mas a amálgama era o Rock, e os ideais hippies, contraculturais etc.
Tenho saudade da alegria que sentia quando acordava nas manhãs de sábado, e sabia que ensaiaria. 

Cada ensaio representava para mim, mais um passo em direção ao sonho.O cabelo pela cintura; as batas coloridas, e a calça boca de sino, com remendos coloridos...

Meus pais achavam que era roupa de festa junina, mas eu achava o máximo andar vestido como o Roger Daltrey, ou o Neil Young...

Continua...

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