segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 10 - Por Luiz Domingues


Dessa forma, Gereba e Mu, um simpatizou o outro. Era difícil não ficar amigo do Gereba, logo de início, pois ele era um sujeito muito simples, mas extremamente comunicativo, brincalhão. Não lembro-me em tê-lo visto mal humorado, nenhuma vez. Ele não era um Rocker, certamente. Sua cultura musical era estreita, pois mal sabia o nome de muitas bandas clássicas, quiçá as obscuras. Seu talento é que era enorme para tirar de ouvido coisas complexas, e reproduzir fielmente, nota por nota, sem entender nada de teoria musical, e nada de técnica de guitarra ou violão.
Já o Mu, mostrava-se o inverso. Conhecia o campo harmônico e escalas na ponta da língua, tinha excelente leitura de partitura, e dominava a história do Rock de cor e salteado. 

Aproveito para mencionar, que havia uma turma que gravitava em torno da banda. Eram amigos do Paulo Eugênio; Gereba e Wilson, principalmente.

Neste casarão, funcionava a pensão onde moravam Gereba e Wilson, e que serviu de QG do Terra no Asfalto nos primeiros tempos da banda, como ponto de encontro

O Paulo Eugênio morava na Rua Traipu, e Wilson e Gereba dividiam um quarto de pensão em rua estreita, chamada São Geraldo, travessa da Rua Turiaçú, ambos os endereços a fazer parte do bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo. E ali era o ponto de encontro dessa turma toda. A pensão em que moravam, chamava-se São Geraldo (apelidada por eles mesmo como "Sãope"), e os outros moradores espantavam-se com a movimentação de cabeludos a carregar instrumentos para lá e para cá.
Lembro-me que o baixista, Ney Haddad, era um desses amigos.Ele era um adolescente nessa época e alguns anos depois, abriria o estúdio Quorum, no mesmo bairro das Perdizes, além de que tornar-se-ia o baixista da banda, Neanderthal, com quem tanto o Pitbulls on Crack (minha banda nessa ocasião futura), dividiria espaço em bastidores de shows e TV, nos anos noventa.
Outro rapaz que chamava-se Sérgio, era irmão de um dos músicos da banda experimental, Uakti, que dava seus primeiros passos naquela época. Ele chegou a contar-me que seu irmão idolatrava o Gentle Giant, na década de setenta, e tocava bateria.
Outro que conheci bem no início de 1980, era um tipo muito magro e elétrico, que respondia pelo apelido de "Catalau". Morava em uma rua próxima (Rua Ministro Godoy), e mesmo por ser muito jovem, informaram-me que tinha sido parceiro de composições do Casa das Máquinas, nos anos setenta. 

A namorada do Mu, tocava flauta. Chegamos a cogitar ter sua participação como convidada, a planejar tocarmos canções do Moody Blues; Jethro Tull, Focus etc. Chamava-se Virginia, e acabara de voltar de Londres, quando contou-nos uma novidade : tinha visto um show do King Crimson... eu e Cido Trindade ficamos pasmos, pois nem sabíamos que o velho Rei Escarlate havia voltado à cena.
E empolgada, disse-nos que o baixista, um sujeito careca, usava um instrumento exótico que tinha som de baixo, mas não era baixo (o tal do "Stick"). Bill Brufford não usava uma bateria convencional, mas um conglomerado de instrumentos de percussão exóticos e os rapazes tocavam trajados com terno & gravata, fora o fato de  usar cabelos bem curtos, ao estilo dos "nerds", componentes da banda Techno alemã, Kraftwerk... cáspite, os anos oitenta estavam a chegar... socorro !

Continua...

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