segunda-feira, 16 de julho de 2012

A Timidez - Por Marcelino Rodriguez


Muito já se falou sobre a timidez, mas creio que erradamente e arrisco-me a dizer que muito pou-cos sabem o essencial do assunto. Vou dar meu tes-temunho de tímido assumido e nem um pouco inco-modado.
Em primeiro lugar, a timidez esconde tanto um pudor quanto um orgulho. Há coisas que envergo-nham ao tímido, que se for de boa safra, não suporta demonstrações esfuziantes de sentimento às vistas dos outros nem de que exponham sua privacidade, assim como respeita a privacidade alheia. Para o tími-do o amor é íntimo e fim de papo. Ele, o tímido, tem o dom da delicadeza e um orgulho imenso de viver no seu território de calma nervosa. Não é fácil tocá-lo, porque ele se esconde dentro da pele. E exatamente nisso que está dentro da pele é que o tímido não quer que toquem, sacaram?
O tímido sente vergonha pelos outros.
Possui antes estratégia que agressividade.
Intuição que racionalidade.
O tímido fala manso e é desconfiado de que po-dem pensar mal dele, e tem medo de acusar o erro dos outros.
Ele quer sempre exalar que perto dele tudo está tranqüilo e todos podem sossegar abaixo da sombra da sua simplicidade e acolhimento. O tímido é humil-de porque sabe que é humano. Sabe das suas limita-ções, muito maiores que suas forças.
Ele tem verdadeiro pavor de incomodar ou de chamar atenção para o seu lado. E muitas vezes quando fala, fala da boca pra fora, pois essencial-mente ele só sai da sua pele para um lugar muito, mais muito aconchegante.
O tímido procura ver a causa e não o efeito.
Não compreende nada que não seja essencial-mente sensível ou humano.
Sofre mais que os outros, porque não é indife-rente e tem senso comunitário. O tímido fica envergo-nhado de seus próprios tesouros.
Jamais posaria nu.
Finge não ver o interesse predador nos olhos das pessoas.
No amor é cortês, discretamente galante e serviçal.
Tem pavor de badalações, aglomeração, exibicionismo.
O tímido sofre de um imperativo categórico que o faz praticar a mais antiga das religiões: a de ser natural.
Como vêem, o tímido seleciona para não se perder no meio do barulho.
O seu silêncio não é omisso.
Ele age enquanto falam.
Suas segundas intenções são as primeiras.
O tímido, na sua santa humanidade, quer apenas uma coisa: que o deixem em paz.
Publicado no livro "A Ilha"
 
Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor prolífico, é um observador arguto da alma humana. Neste artigo, que é um trecho de seu livro "A Ilha",  discursa sobre a questão da timidez.

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