terça-feira, 19 de junho de 2012

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 10 - Por Luiz Domingues


Animados com a perspectiva de participar de um festival com um nível muito alto para os nossos padrões daquele momento, resolvemos encorpar o som da banda, acrescentando um novo membro, tornando-nos então, um quinteto com a entrada do guitarrista Wilton Rentero. Ele surgiu oriundo de uma indicação que o Laert recebeu, dando conta de um garoto que era estudante de violão clássico, e apesar de ter pouca familiaridade com guitarra, era rocker. 


Apesar do Osvaldo não ter apreciado muito a ideia, pois era o membro fundador e acostumado a ser o “lead guitar”, foi convencido pelo Laert e por eu mesmo, que seria benéfico para a banda ter outro guitarrista e assim, o som da banda dar uma "encorpada". E assim, marcamos uma audição com o Wilton Rentero, e sua técnica era tão superior à dos demais, que nem precisamos consultar-nos verbalmente. Aprovadíssimo estava, sem reservas. Foi por volta de março de 1977, que isso ocorreu e conhecemos o Wilton Carlos Rentero. Apareceu com sua guitarra "Ookpik", modelo SG, branca e disposto a mostrar-nos seus dotes musicais num teste. Sua presença tornar-se-ia a grande oportunidade de catapultar a banda para outros degraus, mais altos.


Como quinteto e tendo um guitarrista que fazia solos desse nível, consideramos que a boa base feita pelo Osvaldo, cresceria, também.
Além disso, tínhamos o Laert Sarrumor, que apesar da inexperiência nessa época, era um diamante bruto, sendo lapidado a passos largos. E fora o fato de que eu crescia muito no baixo. Em março de 1977, eu já tinha quase um ano de esforços para vencer a barreira inicial do aprendizado, e posso dizer que melhorara muito.
O que menos crescia era o Fran Sérpico, mas mesmo mais lentamente, também apresentava seus progressos.
 
O Wilton Rentero morava em Engenheiro Goulart, um bairro da zona leste de São Paulo, próximo à Penha. Parecia uma cidade do interior, com pracinhas e estação de trem etc etc. Era (é), bem longe, mas sua força de vontade nunca tirou-lhe o ímpeto de ensaiar e participar das atividades da banda. Logo que entrou, já deu-nos a perspectiva de inscrevermo-nos em festivais. Espertamente o Laert sabia que faltava esse detalhe para a banda pleitear participar de festivais estudantis, e de fato, ficamos muito enriquecidos com sua guitarra. Ele era estudante de violão clássico, mas tinha também uma forte formação Rocker, gostando de tudo o que gostávamos, praticamente. Mas sua predileção era mais pelo Blues e Rock'n Roll, do que Hard-Rock e Progressivo. O negócio dele era “Janis Joplin”; “Rolling Stones”, e outros artistas próximos dessa sonoridade. Não que não gostasse de Prog Rock, aliás gostava bastante do “Yes”, mas na hora de tocar, seu estilo era mais Stones, via Mick Taylor. Porém, o som mais pesado também fazia-se presente, e nesse caso, o “Led Zeppelin” era sua banda de cabeceira. Apesar de ter pouca familiaridade com a guitarra, logo adaptou-se e seus solos cheios de veia bluesy, transformaram a banda, dando-nos um salto quântico de qualidade. E obviamente, todos motivaram-se a estudar mais, subindo o nível do Boca do Céu.





O festival “Fimp” acabou não dando certo, mas tínhamos duas perspectivas interessantíssimas: o Festival do meu colégio, "Femoc" (Festival Estudantil de Música Oswaldo Catalano"), e o Fico (Festival Interno do Colégio Objetivo), este sim, de grande porte, com eliminatórias no ginásio do Palmeiras e transmissão pela TV Bandeirantes. Começamos então a ensaiar e prepararmo-nos para gravarmos as músicas com melhor qualidade, a fim de podermos ter condições de classificação. 
A amizade com o Wilton Rentero foi instantânea, e logo, eu; Laert, e ele, passamos a frequentar juntos o mesmo circuito freak da cidade. Shows; cinema; teatro, e exposições, e lá estávamos nós na porta, visual de hippies, e aquela euforia por estarmos envolvidos naquela atmosfera setentista maravilhosa. E nem desconfiávamos que estávamos no "final da feira", com aquela “vibe” indo para o ralo... mas aí é outra história. Um exemplo vívido disso que acabei de dizer no trecho anterior, ocorreu por exemplo no dia seguinte ao nosso primeiro show, quando fomos ao Teatro Municipal de São Paulo, assistir o show "Mutantes / O Terço tocam Beatles". Essa história já foi contada em capítulo anterior, inclusive.


Atmosfera mágica de anos setenta; aquele perfume de patchouli; todo mundo vestido de hippie chic; cabeludo; e com aquela esperança utópica de estar transformando o mundo cinzento com a força do amor...


Toda essa atmosfera “Woodstockiana” que chegara atrasada ao Brasil, alimentava os sonhos do Boca do Céu, e certamente era fator de incentivo na nossa trajetória. Sem esse clima, não teríamos tido tanta força de vontade, não tenho dúvida disso.
E no ano de 1977, o Brasil dava seus primeiros passos tímidos em direção aos shows internacionais. Após shows sazonais de Santana; Herman Hermit's; Jackson Five; Steve Wonder; Ray Charles; Ravi Shankar e Alice Cooper... mas creio que após o Rick Wakeman em 1975, a perspectiva começou a tornar-se mais concreta e nesse ano de 1977, tivemos duas surpresas agradabilíssimas desse porte internacional, e que tiveram suma importância no fator motivacional do Boca do Céu. Comentarei no decorrer da cronologia dos fatos.
Continua...

2 comentários:

  1. Nada como um super músico de alta qualidade para dar um up na banda!
    Com o seu relato, imagino o quanto ótimo deviam ser frequentar esses circuitos dessa época, qualidade artística no ápice! E assistir show dos Mutantes então?? Luiz, você é muito sortudo!!!

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    1. Pois é, Fernanda. Comparado ao que os quatro membros originais eram técnicamente, o Wilton estava muito na nossa frente e sem dúvida, quando entrou na banda, impulsionou-nos, conforme escrevi no relato.

      Quanto à época retratada, de fato me sinto privilegiado por pegar o finzinho daquela Era, mas muito chateado por ter sido tão pouco. A minha sensação é a de uma criança que chegou atrasada numa festinha e as outras crianças haviam devorado todos os brigadeiros, o bolo, os refrigerantes e estourado todas as bexigas...

      Verdade, não só os Mutantes na fase Prog, mas diversas outras bandas setentistas sensacionais.

      Obrigado por ler e comentar e fique atenta, pois vem mais estórias por aí !!

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