sábado, 28 de abril de 2012

Thick As A Brick : 40 Anos - Por Luiz Carlos "Barata" Cichetto

Há quase que exatos quarenta anos, em 3 de Março de 1972, saia na Inglaterra e Estados Unidos um dos melhores discos da história do Rock, e porque não falar, da musica do Século XX. 

Quinto álbum de estúdio da banda britânica Jethro Tull, foi criado como uma espécie de resposta de Ian Anderson à reação da crítica ao álbum anterior Aqualung que o definira como sendo um disco conceitual, rótulo que ele rejeitou veementemente.

Decidido então a criar uma obra que fosse a síntese de todos os discos conceituais realizados até aquele momento, Ian escreveu Thick as a Brick, uma obra que se integrava deliberadamente em torno de um conceito: um poema escrito por um precoce garoto inglês que fala sobre os desafios de envelhecer.


A idéia criada de que seria esse garoto fictício chamado "Gerald Bostock", ou "Little Milton", de oito anos, começava na arte da capa, que reproduzia um tablóide com “notícias” sobre ele e seu extenso poema. Ainda hoje muitos acreditam que Gerald Bostock era uma pessoa real, e que teria sido realmente o compositor real das músicas.

A edição original do LP, nas edições inglesa e americana continha o falso jornal de 12 páginas, mas teve de ser reduzido ou mesmo completamente suprimido quando do lançamento original na América Latina e Ásia devido aos custos de impressão.


O lançamento em CD também comprometeu a arte da capa, reduzida para se adequar ao formato. Aliás, Thick as A Brick é um disco de uma única música dividida em duas partes em função da limitação de tempo de um LP e no CD aparece, em algumas edições como faixa única.

A audição de Thick as a Brick não é das coisas mais simples, pois requer uma atenção às nuances, variações e quebras de ritmo. É preciso um pouco de paciência quando nunca se escutou algo parecido, pois sem isso o disco, principalmente a quem não sabe inglês e portanto não entende a extensa e magnífica poesia hipotéticamente criada por um garoto gênio de oito anos, pode ser uma experiência não muito agradável.

E acredito que mesmo Ian Anderson tinha consciência disso, ao começar avisando “Realmente não me importo se você agüentará até o fim” para depois se desculpar: “Minhas palavras são um sussurro, sua surdez, um grito”. E se conformar; “Eu posso fazê-lo sentir, mas não consigo fazê-lo pensar.” A saga prossegue mas sempre as figuras do Poeta e do Sábio, permeiam o desenrolar das “visões” de “Little Milton”, nome criado numa clara alusão ao poeta John Milton.

Quem são os sábios e quem são os “burros feito uma porta”? O poeta e o pintor são apenas bobos da corte que “projetam sombras na água”, que guardam suas penas enquanto o soldado arma sua espada.  A conclusão é de que somos todos tolos, acreditando que o Super Homem poderá resolver nossos problemas e que finalmente Robin salvará o dia. “O toque de recolher anuncia o fim da peça...

Enquanto tolo brinda seu Deus no céu”...

Mas, Bostock é um garoto que teme o crescimento e sofre com sua situação social. “Um filho nasceu, e decretamos que ele servirá à luta/ Há espinhos em seus ombros.”, “Eu os julgarei a todos e terei certeza de que ninguém me julgará”, ameaça, para depois perguntar: “Então, onde diabos estavam os Biggles quando você precisou deles sábado passado?”, uma clara critica àqueles que esperam de ídolos a resposta às suas angústias, afinal, “Estão todos descansando em Cornwall, escrevendo suas memórias / Para uma edição comemorativa do Manual de Escoteiro Mirim.” Os heróis não poderão sair das páginas dos jornais e das histórias em quadrinhos e nos salvar, pois afinal eles não sabem o que é sentir-se burro feito uma porta.


Desde meados da década de 70 quando na Rolling Stone Brasil saiu um texto sobre Thick as A Brick do Jethro Tull, publicado posteriormente no livro de Luiz Carlos Maciel, que tinha criado por ela um interesse muito forte, mas achava muito estranha e sem sentido a tradução de Okky de Souza: “Espesso Como Um Tijolo”. Parecia uma tradução literal e sem sentido, mas eu lia e relia a letra, buscando as interpretações poéticas e filosóficas contidas naquela obra-prima.

Acredito que tenha sido por volta de 2001 que tive contato com uma tradução em um blog que muito me interessou. O tradutor era Eduardo Krieck e o titulo era traduzido como “Cabeça Dura”.

Agora fazia um pouco mais de sentido, em relação ao contexto. Um ou dois anos depois, passei a ter um vizinho que era escocês de nome William e comentei com ele sobre isso. Segundo ele, “Thick as a Brick” era uma gíria deles que significava algo como “Burro Feito Um Tijolo”. Saquei de imediato.

E agora, tempos depois cheguei a uma adaptação usando as traduções do Eduardo e do Okky, usando “Burro Feito Uma Porta”, que em português do Brasil, faz mais sentido, dentro do contexto original.


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Thick As A Brick
Ian Anderson

Tradução: Eduardo Krieck e Okky de Souza / Versão Final: Luiz Carlos Barata Cichetto

Parte Um:
Realmente não me importo se você agüentará até o fimMinhas palavras são um sussurro, sua surdez, um grito
Eu posso fazê-lo sentir, mas não consigo fazê-lo pensar
Seu esperma na sarjeta, seu amor no esgoto
Assim vocês cavalgam pelos campos
E vocês fazem todos seus negócios bestiais
E seus sábios não sabem como é se sentir
Sendo burro feito uma porta.

E as virtudes, castelos de areia são todas varridas
Na destruição da maré o entrevero moral
O toque de recolher anuncia o fim da peça
Como as últimas ondas revelam o caminho novo
Porém seus sapatos novos têm os calcanhares gastos
E seu bronzeado descasca rapidamente
E seus sábios não sabem como é se sentir
Sendo burro feito uma porta

E o amor que eu sinto está tão longe
Eu sou um sonho ruim que eu tive hoje
E você balança sua cabeça
E diz que isto é uma vergonha
Faça-me voltar aos anos e dias de minha juventude
Solte o laço e as cortinas negras e cale toda a verdade.
Leve-me às eras distantes, deixe que cantem a canção

Veja lá! Um filho nasceu, e decretamos que ele servirá à luta
Há cravos em seus ombros
E ele se mija à noite
Nós faremos dele um homem o colocaremos no comércio
Ensinaremos a jogar Monopólio, não a cantar na chuva.

O poeta e o pintor projetam sombras na água,
Enquanto o sol bate na infantaria que volta do mar
O fazedor e o pensador: sem tolerância um com o outro,
Enquanto a fraca luz ilumina a crença do mercenário
A lareira acesa: o caldeirão quase fervendo
Mas o mestre da casa está distante
Os cavalos deixam pegadas, sua respiração quente se condensa
Na manhã cortante e gelada do dia
E o poeta ergue sua caneta enquanto o soldado embainha sua espada
E o caçula da família move-se com autoridade
Construindo castelos no mar, ele desafia a maré tardia
A arrastá-los todos para longe.

O gado pastando tranqüilamente na beira do rio
Onde as águas da montanha movem-se em direção ao mar
O construtor dos castelos renova o antigo propósito
E contempla a menina ordenhadora cuja oferta é sua necessidade
Todos os jovens da casa  saíram a serviço
E não serão esperados dentro de um ano.
O jovem e inocente mestre, pensa movendo-se cada vez mais rápido
Formulou o plano para transformar o homem que aparenta ser
E o poeta embainha sua caneta enquanto o soldado ergue sua espada
E o mais velho da família move-se com autoridade
Vindo do além-mar ele desafia o filho
Que o pôs para correr.

O que você faz quando o homem velho parte?
Você quer ser ele?
E seu eu verdadeiro canta a canção
Você quer libertá-lo?
Ninguém para ajudá-lo no trabalho pesado
E o remoinho de água o desnorteia

Eu desci da classe alta para consertar seus modos podres
Meu pai era um homem de poder a quem todos obedeciam
Então, venham, criminosos! Eu os colocarei na linha
Assim como fiz com meu velho, vinte anos atrasado

Seu pão e água esfriando, seu cabelo é curto e impecável
Eu os julgarei a todos e terei certeza de que ninguém me julgará

Você torce seus dedões dos pés de brincadeira enquanto sorri a todos
Você conhece os olhares fixos, não imagina que suas tarefas ainda não acabaram
E ri mais sadicamente enquanto nos diz como não devemos ser
Mas como podemos saber para qual lado devemos correr?

Eu o vejo andando pelo tribunal com seus anéis nos dedos
Suas pequenas costeletas peludas e seus sapatos com fivelas de prata
Jogando por uma causa perdida, você segue o exemplo do ídolo
Dos quadrinhos que o permite burlar as regras.

Então, venham todos vossos heróis de infância, não levantar-vos-ei das páginas
De vossos quadrinhos, vossos super vilões  e nos mostram o caminho?
Bem! Fazei vossos desejos e testamentos, não vais participar do seu governo local?
Nós teremos super-homem para presidente, deixe que Robin salve o dia
Você aposta no número um e ele sempre vence
As outras crianças já desistiram e o colocaram em primeiro lugar na fila
Então finalmente você se pergunta o quão grande é
E conquista seu lugar em um mundo mais sábio de maiores carros motorizados
E você imagina a quem poderia chamar.

Então, onde diabos estavam os Biggles quando você precisou deles sábado passado?
E onde estão todos os Desportistas que sempre o incentivaram?
Eles estão todos descansando em Cornwall, escrevendo suas memórias
Para uma edição comemorativa do Manual do Escoteiro Mirim.

Parte Dois:
Veja lá! Um homem nasceu, e nós decretamos que ele serve para paz
Há uma carga em seus ombros com a descoberta de sua doença
Nós vamos tirar a criança dele, colocá-la em testes
Ensiná-la a ser um homem sábio para o restante.

(Estaremos preparando para a média e não o excepcional)
(Deus é uma responsabilidade esmagadora)
(Andamos pela ala da maternidade e vimos 218 bebês usando roupas sintéticas)
(Diz aqui  que gatos estão evoluindo, evoluindo?)

No esplendor dos suaves halos de manhãs maravilhosas
Eu assumo meu posto com o senhor das colinas
E os soldados de olhos azuis de pé estão levemente descorados
Em pequenas filas organizadas, envergando babados de lona

Com suas sungas beliscando, eles descansam da posição de sentido
Enquanto fazem fila para sanduíches na cantina do escritório
Cantando: “Como está sua vovó e o bom velho Ernie
Ele pagou dez libras como recompensa pela união.
As lendas (escritas no antigo hino tribal
Embaladas no chamado da gaivota
E as promessas que eles fizeram estão enterradas embaixo da cachoeira do sádico. 

O poeta e o sábio ficam atrás da arma
E sinalizam para o romper da manhã, acendam o sol
Você acredita no dia? Você acredita no dia? 

O Amanhecer da Criação dos Reis começou
Suave Vênus (donzela solitária) traga aquele que não envelhece
Você acredita no dia? Você acredita no dia?
O herói decadente retornou à noite
E totalmente inspirados pelo dia, os sábios endossam a visão do poeta
Você acredita no dia? Você acredita no dia?

Deixem-me contar-lhes as histórias de suas vidas
Do corte e da punhalada da faca
Da opressão incansável da sabedoria instilada
Do desejo de matar ou morrer.
Deixem-me cantar sobre os perdedores que mentem
Que vivem na rua enquanto o último ônibus passa
As calçadas estão vazias, nas sarjetas escorre o vermelho
Enquanto os tolos brindam seu deus no céu

Então vide vós, jovens que estais construindo castelos!
Marcai gentilmente a época do ano
E uni-vos vossas vozes em um coro infernal
Marcai a precisa natureza de seu medo

Deixai-me ajudar-vos a juntar vossos mortos
Enquanto os pecados dos pais são alimentados
Com o sangue dos tolos e com os pensamentos dos sábios
E pela panela debaixo de sua cama
Deixem-me apresentar-vos uma canção
Sobre como o homem sábio peida e se retira
E como tolo com a ampulheta tem suas esperanças frustradas
E o verso infantil renova o ar.

Então! Vinde vós, jovens que estais construindo castelos
Marcai amigavelmente a época do ano
E uni vossas vozes em um coro infernal
Marcai a precisa natureza de seu medo.
Vede! As tempestades de verão lançam seus raios em vós
E a hora do juízo final se aproxima
Você seria o tolo em pé, de armadura
Do homem mais sábio que corre sem ela?

Então! Vinde vossos heróis de infância! Não saireis das páginas
De vossos quadrinhos, vossos super-inimigos, e mostrar-nos-eis o caminho a seguir?
Bem, fazei vossos desejos e testamentos, não vais participar do seu governo local?
Nós teremos super-homem para presidente, deixe que Robin salve o dia.

Então! Onde diabos estavam os Biggles quando você precisou dele sábado passado?
E onde estão todos os Desportistas que sempre o incentivaram?
Estão todos descansando em Cornwall, escrevendo suas memórias
Para uma edição comemorativa do Manual de Escoteiro Mirim.

Assim vocês cavalgam pelos campos
E vocês fazem seus negócios bestiais
E seus sábios não sabem como é sentir-se
Sendo burro feito uma porta.

25/04/2012

Luiz Carlos "Barata" Cichetto é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor Artesanal de revistas e livros e admirador da carreira do Jethro Tull, desde o início dos anos setenta.

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues

Foi em agosto de 1976, portanto, que tive pela primeira vez na vida, o sabor de ver algo a meu respeito publicado. Trato esse acontecimento singelo, como o nascimento oficial de meu portfólio. Saiu na edição n° 20 da revista "Rock, a História e a Glória" com The Beatles, como matéria principal.

Trata-se de uma carta tola que escrevemos para a "Rock, a História e a Glória", falando de nossa banda. Nessa carta, apresentamo-nos com um novo nome, pois achávamos o "Céu da Boca", impróprio para uma banda de rock, e rebatizamos com algo mais, digamos, "barra pesada": "Injeção na veia". O Osvaldo datilografou a carta e escreveu certo a palavra "injeção". Mas algum problema ocorreu na diagramação, e na revista saiu grafado "Ingeção"com G.
Esse erro, somado ao texto adolescente e absolutamente ingênuo que enviamos, deu-nos notoriedade, pois na edição seguinte, houve uma quantidade de cartas indignadas de outros leitores, avacalhando-nos. Em suma, a banda era horrível, mas em três meses, fazia "barulho", sem ao menos ter ensaiado formalmente !!
Então, o Edson saiu e com o anúncio no Jornal da Música (era um suplemento que vinha encartado dentro da Revista "Rock, a História e a Glória"), a procura de vocalistas, recebemos algumas cartas de postulantes. Acabamos interessando-nos por um rapaz chamado Laert Júlio, que dizia ser compositor; vocalista, e sabia tocar um pouco de teclados.

Marcamos encontro na escola onde eu e Osvaldo estudávamos, e o recebemos no pátio, durante o recreio de um dia de aulas. Naquela Era pré-internet, não sabíamos como ele era, e sonhávamos com um "frontman" de visual igual ao do Robert Plant...
Nossa primeira impressão foi de desapontamento ao vermos um sujeito de cabelos curtos, com aquele corte tradicional e antiquado dos anos 1930, roupas de tergal, e óculos fundo de garrafa...

Laert Sarrumor em foto bem mais atual, já famoso, após anos de carreira consolidada com o Língua de Trapo 

Não conhecíamos o termo "Nerd" naquela época, mas era exatamente isso o que estávamos pensando. Ainda mergulhados no espírito setentista, a única coisa que ocorreu-nos foi arranjar-lhe o apelido de "Fripp", alusão ao genial Robert Fripp, que desde 1975, havia adotado o visual "anti-Rocker", com cabelos curtos e roupas "caretas"

Continua...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Barack Obama - Por Julio Revoredo


Foi com alegria que pude presenciar  a eleição do primeiro presidente negro nos Estados Unidos.

Porém, a vinda do mesmo ao Brasil, causou-me profunda decepção devido à sua opção em ir somente a cidade do Rio de Janeiro, ignorando a importância da cidade de São Paulo, que além de ser a maior cidade do Brasil e o coração econômico desse pais.
Para mim, esse fato provou profunda ignorância de Obama ao se limitar apenas a uma citação pífia de São Paulo e da Bahia.

O Rio de Janeiro, talvez tenha sido sua opção, por ser o mesmo do Havaí. De qualquer forma o presidente da maior nação do mundo ter ignorado a maior cidade da América do sul, é um fato que não vou engolir.
O Rio de Janeiro, lembra-me o filme "O Crepúsculo dos Deuses", em que uma atriz vive de sonhos e glórias do passado, estando em plena decadência.

São Paulo nunca precisou ser a capital do Brasil, pois São Paulo é a
capital moral do Brasil. O Rio é uma cidade turística.
São Paulo decide os rumos futuros da nação, São Paulo só cresce.
Existe uma possibilidade de que o Rio de Janeiro tenha sido ultrapassado por até duas cidades, mas essa pesquisa não é de todo confiável.

A famosa rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro é unilateral, só do Rio, pois São Paulo não deve nada ao Rio.

São Paulo é bem maior e mais rica. Dizem até que com o tempo, São Paulo crescente engolirá o Rio de Janeiro.

Por isso, será de bom tom, que da próxima vez que vier ao
Brasil, Obama se informe melhor o que é a cidade de São Paulo, de que eu paulistano, orgulho-me muito.




Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas músicas que compusemos em parceria em várias bandas onde toquei, como : A Chave do Sol, Sidharta e Patrulha do Espaço. Neste artigo, desabafou seu desapontamento com Barack Obama, que ignorou a nossa Pauliceia Desvairada.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Syd Barrett e o Elefante Efervescente - Por Luiz Carlos "Barata" Cichetto



Syd Barrett criou a essência do Pink Floyd, mas depois não coube mais dentro de sua própria criação. Aquilo era pequeno demais para caber sua genialidade. Syd Barrett era maior que o Pink Floyd. Sempre foi e sempre será. Segundo conta a história, ou melhor contam os remanescentes da banda, Syd foi colocado de escanteio por causa de sua "deterioração mental". Afinal, aprisionar aquela gostosa da Karine (a peladona que aparece na capa de Madcap Laughs era a namorada dele na época) num apartamento e lhe passar bolachas por baixo da porta era coisa de doido mesmo.  Aparecer no palco com a cabeça cheia com uma pasta de comprimidos é coisa de maluco mesmo. Ficar tocando uma nota apenas na guitarra, então, isso é coisa de doente mental.


Mas Roger Keith Barrett não era maluco, maluco eram eles. E sabiam disso. Tanto sabiam que continuaram a usar as idéias digamos pouco ortodoxas de Syd em um monte de discos que seguiram a saída dele. "The Dark Side Of The Moon", segundo Waters e Gilmour era uma homenagem á ele, pois "apenas os lunáticos podem enxergar o lado escuro da lua". Lunático? Syd era lunático? Claro que não. Chamar Syd Barrett de lunático é o mesmo que chamar Freud, Schopenhauer, Da Vinci, Einstein também de lunáticos.

Um sujeito que pegou o Rock e disse: "Ok, vamos à lavanderia!". Que pegou as experiências sonoras de John Cage (outro lunático?), colocou uma pitada de musica erudita, um quilo de Rock'n'Roll, bateu num liquidificador mental e transformou essa pasta num belo e florido Elefante Efervescente. Um elefante que esmagou os conceitos sobre música para sempre. Não era um maluco, nem doido, nem doente mental. Era um gênio. E a história da música deverá ser escrita no futuro da seguinte forma: AB/DB, ou seja, Antes de Barrett e Depois de Barrett.



Basta que escutem com atenção composições como "Astronomy Domine", "Interstellar Overdrive" e principalmente "See Emily Play" e mais ainda "Arnold Layne". Esta uma das composições musicais, incluindo letra, mais "malucas" da história da música. As idéias de Barrett até sua "demissão" do Pink Floyd estavam por toda parte. E não apenas na música, nos arranjos e nos mínimos detalhes musicais, com também na plástica, nos conceitos e em cada uma das letras compostas diretamente por ele, ou influencias por sua “loucura”.

E seus ex-companheiros sabiam e ainda sabem disso. Tanto que toda obra que o  Pink Floyd compôs desde sua saida é simplesmente a continuação das suas idéias, como se aquele prisma que Syd tinha dentro da cabeça tivesse sido lapidado e passasse a refletir outras tonalidades. Barrett era a luz que incidia sobre o prisma ou era o prisma que refletia a luz que partia de algum ponto do universo e criava o espectro? Karine conhecia Syd que não conhecia ninguém, não reconhecia seus amigos de banda... Bobagem. Roger comia Karine que estava sempre nua em sua dieta de bolachas.  Syd comia as bolachas também?  Syd usava drogas ou eram as drogas que faziam experimentos em sua mente, tentando entender até que ponto podiam chegar dentro da mente humana? Escolheram um gênio para suas experiências. 


"Há um lunático em minha mente", pensou Roger Waters, dentro de sua paranóia de Segunda Guerra Mundial. "Há alguém em minha cabeça, mas não sou eu". Era Barrett dentro da cabeça de Waters e ele não podia suportar aquilo muito tempo. "E se a banda em que você está começar a tocar melodias diferentes" ainda pensou. "Eu te verei no lado escuro da lua"., ainda disse Waters antes de chutar Barrett do ventre de sua criação.

Waters em sua megalomania não podia suportar Syd, um louco diamante. E nem Karine suportou comer bolachas passadas por debaixo da porta, colocou a roupa e desapareceu. "Corra, coelho corra, Cave um buraco, esqueça o sol / E quando afinal o trabalho estiver feito / Não se sente, é hora de cavar mais um". E Barrett respirou fundo, cavou um buraco bem fundo dentro de sua própria mente, e feito um coelho assustado ficou quieto, calado, deixando que pensassem que era a loucura o que o afastara do mundo.


Era preciso ajustar os controles para o coração do Sol, rompendo a escuridão. E Syd foi cuidar das flores do jardim da sua mãe. Era preciso entender as flores ao Sol. Era preciso entender o Sol. Porque apenas quem entende o Sol, consegue fugir das sombras, da escuridão. O elefante efervescente o acompanhou, enquanto Arnold Layne pendurava suas roupas na janela. E o Octopus da morte disse: "Veja, veja Emily brincar". E Emily respondeu: "Não há outro dia!" .Então, o Elefante Efervescente “com olhos pequenos e uma tromba enorme sussurrou para a orelha de um inferior que para o próximo mês de Julho ele morreria.”
18/04/2012





Luiz Carlos "Barata" Cichetto, é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2.
Poeta , Escritor, Webdesigner e editor artesanal de livros e revistas, acompanha o Rock desde 1970 com atenção arguta.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Consutil - Por Julio Revoredo


Do emerso septângulo

Sob os vessos de Iofon

Sob as cores de zeuxis

O corculo apiro

O desalado morcego, trissa. desagora, uxi, abacina.

Pelo faial, deambula o arlotão em sua parestesia.

Vive num undifero alfarge, com seu lusmeo e toma o seu hissom.






Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas composições em que trabalhamos em parceria para bandas onde toquei, como: A Chave do Sol, Patrulha do Espaço e Sidharta, é meu amigo desde 1982.

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 2 - Por Luiz Domingues

O nome Boca do Céu não foi o primeiro que escolhemos.
Antes disso, num curto espaço de tempo, havíamos batizado a banda como "Rest In Peace"; "Ohms"; "Gato de Botas"; "Iscariots", e finalmente estabilizou-se como "Céu da Boca", em julho de 1976. Portanto, a mudança para "Boca do Céu", só ocorreria meses depois.
Todos eles passavam pela imaginação juvenil, permeada de signos do Rock setentista. "Rest in Peace" trazia a morbidez de um Black Sabbath; "Ohms", poderia remeter à algo científico, como gostava de citar o Van Der Graaf Generator em suas músicas; "Gato de Botas" recorria à literatura infantil dos Irmãos Grimm, ou Hans Christian Anderson, e claramente era uma citação ao Genesis. E finalmente o "Iscariots", era uma referência ao personagem bíblico que traiu Jesus Cristo, e certamente era uma menção à Ópera-Rock, "Jesus Christ Superstar", da qual gostávamos. Só depois de algum tempo, houve uma inversão, e o nome estabilizou-se como "Boca do Céu". Em agosto, o Bernardão "Janjão" não quis mais brincar de Rocker, e saiu. Chamamos outro colega de escola, Edson Coronato, apelidado Edson "Coverdale", para assumir o vocal. A condição musical dele era a mesma do Bernardão, ou seja, cantor de chuveiro, sem noção musical, mas com exceção do Osvaldo, que era o melhor tecnicamente, todos éramos péssimos, portanto, nosso critério para escolher um novo vocalista, era sem noção também. Mas o Edson era muito gente boa, Rocker de carteirinha como nós, e o melhor centroavante da escola.
Edson Coronato era meu colega de classe na 7ª série, em 1974. Fã de futebol e Rock, como eu, logo tornou-se amigo. Na nossa escola, era o melhor centroavante e ainda bem, jogava no meu time. Formava uma dupla infernal com o ponteiro Wlademir Chiari (outro bom amigo que tinha e este, desde a infância pois estudamos juntos desde 1968), e com seus gols, ganhamos muitos jogos. Nosso time chamava-se "Universal". Antes que o leitor possa imaginar, não tinha nada a ver com a Igreja evangélica que apropriou-se dessa expressão como sua marca pessoal, mesmo porque, tal instituição religiosa nem existia nessa época. O nome do nosso time era pomposo : "Associação Futebolística Universal de São Paulo". A razão prosaica da escolha de tal nome, foi porque já existiam muitos times com nome de "Internacional" e "Nacional", mas "Universal", não era conhecido, e suplantava os dois anteriores numa visão, digamos, expansionista. Logo surgiria o "Cosmos" de Nova York e acabaria conosco, mas nem sonhávamos com essa humilhação, em 1974. Em termos de Rock, o Edson gostava de muitas bandas. Mas lembro-me que tinha especial apreço por Deep Purple e Nazareth. Costumava imitar Ian Gillan; David Coverdale, e Dan MacCafferty, por cima dos discos que ouvíamos juntos, e na companhia de outros rockers da escola, como o Jacques, que aliás era o nosso goleiro e fechava o gol com suas defesas elásticas. Abro um pequeno parênteses para explicar a razão pela qual já era amigo do Edson, retroagindo ao segundo semestre de 1975. Em 1975, estávamos enlouquecendo com o Rock e exemplares da revista "Rock, a História e a Glória" e também da "POP", corriam de mão em mão, na mesma profusão com que emprestávamos LP's e Fitas K7 de diversas bandas internacionais e nacionais, uns aos outros.

Mas houve um fato desagradável na escola, e nessa idade, no meio da adolescência, fazia muita diferença. Eu repetira a sétima série e meus amigos seguiram em frente. Enquanto eu era o repetente da "sétima C", em 1975, eles seguiram em frente e isso não diminuiu a nossa amizade, nem demoveu-nos de nossas atividades Rockers e futebolísticas, mas forçosamente, nossos horários e convivência, ficaram mais prejudicados. Mesmo assim, no segundo semestre de 1975, resolvemos fundar uma banda. Só havia um detalhe absolutamente risível nessa determinação juvenil : ninguém sabia tocar absolutamente nada !! Então,"escolhemos" um instrumento cada um, e formamos a banda, na quixotesca esperança de que começaríamos a aprender, e em poucos meses, estaríamos ensaiando "de verdade". A formação da banda seria : Wlademir (teclados); Edson (baixo); Jacques (guitarra); Bernardo (vocal), e eu na bateria, pois confesso : sempre quis ser baterista...e o baixo foi um acidente na minha vida. Essa formação dissipou-se de vez assim que o ano de 1975 findou-se e todos passaram de ano, mas criando então um novo empecilho. Meus amigos saíram da escola, formando-se no ensino fundamental e espalhando-se assim por outros colégios, onde iniciariam o segundo grau, enquanto eu fiquei, para cursar a oitava série, enfim. Por volta de março de 1976, insisti em prosseguir com essa banda fictícia, mas apenas dois amigos sinalizaram que tentariam prosseguir, entre eles, Edson. Contudo, esse delírio não durou um mês, apesar da banda ter recebido um novo nome até interessante : “Medusa”.
Nessa altura, eu já havia desenvolvido o mínimo, conseguindo tocar numa nota só com razoável segurança rítmica. O baterista Fran Sérpico havia ganhado uma bateria "Gope", e começava a estudar, mas ainda não ensaiávamos formalmente, devido à falta de local e equipamento. Ficamos com essa formação até agosto de 1976, quando o Edson resolveu sair. Então, sem perspectivas de arrumar um novo vocalista (um colega nosso da escola, Gabriel, chegou a ser cogitado, mas desistimos diante de sua relutância), tivemos uma ideia inusitada que pensando bem, hoje, foi bastante ousada e sem dúvida, sem a menor noção, pois estávamos nos expondo sem levarmos em conta a nossa total ruindade musical e inexperiência: colocamos um anúncio no Jornal de Música, da Revista "Rock, a História e a Glória".

Era a revista mais sensacional de Rock que existia na época (tudo bem, existia a Revista POP, da editora Abril, mais bem acabada e produzida graficamente, mas falava de outros assuntos, como moda e comportamento, porém no quesito texto, a "Rock" ganhava de mil a zero). Então, após vibrarmos por ver nossa carta publicada no Jornal, começamos a receber cartas de aspirantes.

Minha sina em ver meu nome escrito errado, vem de longe...como se não bastassem os inúmeros aborrecimentos que tive com o apelido que usei durante anos, eis minha carteirinha escolar da 8ª série, quando o Boca do Céu iniciou atividades. Quem é mesmo Luiz Antonio "Domingos" ?

Continua...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Novo Site da Patrulha do Espaço - Por Luiz Carlos "Barata" Cichetto


O conjunto foi criado em 1977 por Arnaldo Baptista (ex-Mutantes), juntamente com o baterista Rolando Castello Júnior (que já havia tocado com o Made in Brazil e com o Aeroblus, da Argentina), o baixista Oswaldo "Kokinho" Gennari e o guitarrista irlandês John Flavin (ex-Secos & Molhados). Patrulha do Espaço, (...) estreou no 1° Concerto Latino Americano de Rock, no Ginásio Ibirapuera em São Paulo, em setembro de 1977, tornando-se uma das principais expressões do Rock paulistano e brasileiro das últimas décadas."

O texto acima é a parte inicial do verbete da Wikipédia sobre a Patrulha do Espaço, banda que há trinta e cinco anos entre decolagens, pousos forçados e aterrissagens em terrenos inóspitos, sempre primou pela qualidade de suas músicas e sempre fez questão de ser fiel ao "Sonho eterno de Rock'nRoll", conforme uma de suas próprias músicas. E essa fidelidade ao Rock, ao menos numa terra sem uma base cultural-musical de qualidade, custa caro.

Resultado: o Rock no Brasil perdeu essência, qualidade e principalmente o rumo. Poucos exemplos de bandas que realmente tocam Rock. Alguns retornos de "velhos estandartes" e alguns poucos que insistem, persistem e resistem. E entre esses que são "a resistencia do movimento, matando dez leões a cada dia", está a banda comandada Rolando Castello Júnior.
 E desde o tal Concerto Latino Americano de Rock que acompanho o trabalho da banda, tendo presenciado apresentações inesquecíveis, como no Ginásio do Palmeiras, ainda com Arnaldo, a inesquecivel apresentação no SESC Vila Nova, com a participação do lendário Manito numa canja ensandecida que culminou com o guitarrista Dudu Chermont espatifando à la Pete Towshend, uma SG azul no palco.

 Depois disso, a apresentação na Equipe Tarkus, sobre o qual já comentei à exaustão. Fora esses, a abertura para o Van Halen e uma infinidade de outros shows aos quais compareci, sempre procurando acompanhar de perto a carreira dessa banda, que a mim sempre soou autêntica e forte e que, mesmo com suas osclilações de altitude, de volume e frequência, sempre foi fiel aos mais profundos principios essenciais do Rock'n'Roll.
Num determinado momento de 2001, se a memória não falha, passei a ter contato com o Capitão-Maestro da Patrulha do Espaço, à guiza de construir um website para a banda. Naquele momento o site não saiu, mas veio um convite para acompanhá-los em turnês.


Foi uma época magnífica, de muito aprendizado sobre o mundo do "show business" e, principalmente sobre as dificuldades de se tocar Rock no Brasil. Uma época de muita adrenalina, muitas discussões ao calor dos espetáculos, mas de profundo enriquecimento humano e cultural. Essa fase durou cerca de três anos, mas mesmo depois continuei a ter contato com Rolando, embora nós dois, portadores de fortes personalidades, estejamos sempre nos estranhando... Mas o mais importante é que, desses "estranhamentos", típicos de pessoas que pensam e reagem, sobrou uma amizade difícil de encontrar no tão falso mundo da música e, principalmente, mundo do Rock.

No final de 2011, Rolando comentou sobre o novo disco, sobre a necessidade de ter um bom site. Aceitei de pronto o convite (pois amigos não pedem, convidam) e comecei a trabalhar no site. Muito trabalho, mas um desejo de colocar ali, além do básico que qualquer profissional da área colocaria, a emoção de estar, de alguma forma não apenas contribuindo para um trabalho no qual eu acredito sinceramente, mas de fazer uma homenagem a todos aqueles que acreditaram e ainda acreditam no "Sonho Eterno de Rock'n'Roll"... Mesmo que "Dormindo Em Cama de Pregos"... Ladies and Gentlemen: www.patrulhadoespaco.com.br . Luiz Carlos "Barata" Cichetto Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor Artesanalwww.abarata.com.br
www.baratacichetto.blogspot.com
www.kfkwebradio.com.br

Luiz Carlos "Barata" Cichetto é poeta, escritor, webdesigner, editor artesanal de livros e revistas e mantém o site cultural "A Barata". Acompanha o Rock com vivo interesse desde 1970, tendo uma ligação afetiva com a Patrulha do Espaço há muitos anos. A partir de hoje, é também colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Em um determinado Ponto - Por Julio Revoredo

Há um lugar onde a névoa confunde-se com o orvalho e a bagua

Onde a obscura e insuspeita mágoa, afoga-se

Aonde o erro, nasce em face ao que foi-se

Onde o lúdico prono, como aranha o inculto, tece.
Sim, há um lugar onde a bagua, o orvalho e a névoa, desaparecem

Onde o sol arrefece, e o mistério da vida desvanece no torpe umbral, do silêncio.




Julio Revoredo é poeta e letrista de várias músicas que compusemos em parceria, em três bandas em que toquei : A Chave do Sol, Sidharta e Patrulha do Espaço. É colunista fixo no meu Blog n° 2 e meu amigo desde 1982. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Algas - Por Julio Revoredo

Algas mesmerizam olhares dobrados sem curvas

Ora implexos

Ora vórtices soslaios, laivos de aquadutos.

Subterrâneos iluminados de absconsitudes e precipícios com leões em fogo e verdes esmeraldas de torpor.

Sóis na terra, luas no mar

Amalgamas a tentar

Trovões nos sonhos das sombras.

Enfim, articulo o denso voo, salto no escuro, reboo.

Por vezes, atalho, do espelho, baralho, de uma Alice natimorta, quase torta, fosmea e alquebrada,

Onde folhas, farfalham, algas que em giros, voltam-se e voltam e mesmerizam.






Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas músicas que compusemos em parceria, é meu amigo desde 1982.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 1 - Por Luiz Domingues

Tudo começou em abril de 1976, quando o guitarrista Osvaldo Vicino convidou-me a formar uma banda. Eu não tocava absolutamente nada, não tinha nenhum instrumento, nem nenhuma noção de teoria musical. Com a negativa de outros colegas da nossa escola (éramos colegas da 8ª série, na mesma escola), o baixo sobrou-me, por pura eliminação, pois ninguém queria assumir essa função.

Com a falta de bateristas na escola, ele indicou um primo seu, chamado Francisco Sérpico, que morava na zona leste, e que estava querendo aprender a tocar. Osvaldo Vicino foi o iniciador do processo de criação da banda, portanto. Ele cursava a oitava série no colégio Maria Antonieta D'Alckmim Basto (antigo Grupo Escolar da Vila Olímpia / Ginásio Estadual da Vila Olímpia), na Vila Olímpia, zona Sul de São Paulo, no ano de 1976, quando conheceu-me e tornou-se meu amigo, e era também era um apaixonado pelo Rock, naturalmente como eu. Sendo ambos inveterados ouvintes do programa radiofônico "Kaleidoscópio", e leitores da Revista "Rock, a História e a Glória", logo tornamo-nos amigos e sendo assim, manifestamos a intenção de criar uma banda de Rock. Essa foi a semente primordial do Boca do Céu, com Osvaldo assumindo o posto de guitarrista; vocalista, e compositor. Coube-me tornar-me o baixista da banda, pois não sabia tocar nenhum instrumento musical, tampouco tinha dotes vocais. Portanto, num esforço cooperativo, Osvaldo propôs-se a ensinar-me o "be-a-bá" da teoria musical e alguns exercícios iniciais ao instrumento, para que eu aprendesse e começasse o meu lento desenvolvimento.





Pela ordem, Deep Purple (em foto de sua penúltima formação setentista, 1973 / 1975, a chamada "Mark III"); A contracapa do LP "Tudo Foi Feito Pelo Sol", dos Mutantes e uma foto promocional do Nektar, de 1974 ou 1975, provavelmente.

Chamamos um outro colega da escola para ser vocalista, o Bernardo, vulgo Bernardão (que também tinha o apelido de "Janjão), pelo porte avantajado (era um cara muito forte para os padrões de um moleque de 15 anos), mas sua experiência era só a de cantar no chuveiro, e achar que acompanhava com desenvoltura o vocal  junto com os discos do Deep Purple; Nektar, e Mutantes, bandas que gostava. Eu conhecia-o desde 1974, mas foi em 1975 que tornamo-nos amigos, quando estudamos na mesma classe, a "Sétima C", quando na condição de repetente, estudei pela segunda vez nessa série, como se tivesse sido "rebaixado" para a segunda divisão, em 1974...

O Bernardo “Janjão” era um rapaz muito forte e seu porte físico era muito maior que o dos meninos de sua idade, e seu temperamento era sossegado normalmente, embora em momentos tensos, ele não deixasse de usar sua força para impor-se, e esse tipo de tensão entre moleques dessa idade, é uma questão quase diária, pela explosiva mistura : hormônios em ebulição x imaturidade. É raro não sair no braço, nem que for por "brincadeira"...

E por ter esse porte de "lutador", seu segundo apelido óbvio, era "Bernardão". Musicalmente, ele gostava de Mutantes, Deep Purple, Nektar e outras tantas bandas setentistas em voga, na época. Mas as três que citei inicialmente eram no caso, as suas prediletas, além do “Grand Funk”. Lembro-me de termos ido juntos ao show do “Rick Wakeman”, em dezembro de 1975, no ginásio da Portuguesa de Desportos, e com mais um amigo nosso em comum, chamado Mário, que era da nossa classe, também. Isso reforçara nossa vontade de ter uma banda de Rock, "de verdade". Ele queria muito fazer parte de uma banda, mas tinha a típica dificuldade muito comum dessa época, ou seja, era raro quem já tocava algum instrumento e mais raro ainda, quem possuísse um instrumento, ainda que de segunda ou terceira linha. Mas, arvorava-se de ser cantor, ainda que sem nenhuma noção musical, pelo simples fato de gostar de cantar no chuveiro ou por cima dos discos de bandas que gostava de ouvir.

Naquela circunstância, onde só o Osvaldo tinha uma noção básica, o fato do Bernardo não saber nada, não era uma barreira inviabilizadora para ele. Além disso, a nossa ingenuidade juvenil era tão grande, que esse "detalhe" não incomodava-nos absolutamente em nenhum aspecto...

Pelo contrário, ficamos contentes com a perspectiva de termos um novo membro na banda e de fato, pelo companheirismo que tínhamos entre os três, a presença dele nas reuniões ou simulacros de ensaios, era importante e fator de animação para todos.


Se posso enxergar méritos, claro que o fator "força de vontade", tem que ser elogiado. Ele queria e tinha garra nessa determinação. Mas, até a "página dois", vimos logo, pois a vida cobrou-lhe outros rumos, e do mesmo jeito que entrou com essa vontade toda, saiu e não deixou vestígios. E um sinal prévio, deu-se quando cortou o cabelo radicalmente, da noite para o dia e isso, no imaginário do Rocker setentista típico, era o equivalente à um ato de traição, praticamente. Ele gostava de usar um sobretudo chic, que era moda entre Rockers daquela época, querendo respirar ares europeus, e convenhamos, as estações de outono / inverno naquela época em São Paulo, eram muito geladas e ao contrário dos dias atuais onde as ondas de frio são rápidas, era cabível usar roupas pesadas por bastante tempo, fora o fato de que a garoa era forte, toda noite.

Nós nunca ensaiamos para valer, com o Bernardo cantando num microfone e ligado num equipamento de P.A., mínimo que fosse. Isso porque no tempo do Bernardo, nós ainda não havíamos oficializado um baterista e eu não reunia condições mínimas para fazer um ensaio de verdade, porque estava engatinhando nos primeiros exercícios, numa fase muitíssima preliminar de aprendizado. Depois que deixou a banda, nunca mais tive notícias dele. Fiquei com a lembrança de um colega legal, muito extrovertido, que gostava de cantar e usar "sobretudo", mesmo em dias não tão frios assim, e com aquela cabeleira setentista típica, enorme, até o meio das costas, que incomodava as irmãs mais velhas do Osvaldo, que achavam esse visual "démodé", ali na virada da metade da década de setenta e viviam sugerindo que ele cortasse-o. De fato, poucas semanas depois ele cortou e como Sansão, parece que seu entusiasmo rocker diminuiu. E daí, saiu de cena, logo após a virada de semestre de 1976...

Eis acima o famoso baixo da marca "Hofner", imortalizado por ser o predileto do Paul McCartney em grande parte da carreira dos Beatles, principalmente na primeira fase da banda depois de lançada no mercado fonográfico, 1962 / 1966
 
Com essa formação inicial, não chegamos a ensaiar. Primeiro por não termos local. Segundo, por eu ser tão horrível, que precisava de um tempo para desenvolver o mínimo praticável, e o mesmo para o pseudo baterista Fran Sérpico, que nem bateria tinha. No início, o meu primeiro contato com um instrumento, foi uma adaptação absurda que o Osvaldo praticou, ao colocar cordas de baixo num violão velho que possuía. É claro que não daria certo e logo percebemos que arrebentaria com o instrumento. Mas uma segunda tentativa semelhante foi feita, desta feita com o próprio Osvaldo colocando cordas de baixo numa guitarra Giannini velha que não usava, não sem antes pintá-la de verde, com um spray. Não era possível dar certo novamente, e convencido de que precisava comprar um baixo, tratei de arrumar um dinheiro com meu pai e através de uma indicação do próprio Osvaldo, que vira um instrumento usado numa loja de penhores, comprei o meu primeiro baixo. Custou-me duzentos cruzeiros, e tratava-se de uma imitação barata de um baixo Hofner, igual ao que o Paul McCartney usava no tempo dos Beatles, e tem usado novamente em suas turnês modernas, há pelo menos uns quinze anos.Ele era preto, e só conseguia ser afinado mediante o uso de um alicate, devido ao fato de suas tarraxas estarem completamente emperradas. Mas sentia-me um Rocker, empunhando-o orgulhosamente nos primeiros momentos da banda. Apesar de sermos uma banda totalmente iniciante, contando só com um membro que sabia o be-a-bá da música, ainda assim, não tirávamos “covers”. Apesar de sermos péssimos e no meu caso e do Fran, estaca zero total, nas reuniões no apartamento do Osvaldo Vicino, trabalhávamos em composições próprias. Não havia a mentalidade de tocar covers, infelizmente hoje tão disseminada na cabeça da garotada atual. O melhor músico da banda era o Osvaldo, que já tocava desde 1974, mais ou menos. Sabia fazer vários acordes e conduzia ritmos. Achávamos o máximo, vê-lo tocar com uma desenvoltura milhas acima da nossa.

Eu, Luiz Domingues, em foto de carteirinha escolar, de 1976, cerca de dois meses antes de receber o convite de Osvaldo Vicino para formarmos uma banda
 

Pelo menos propus-me a estudar e desenvolver ao máximo.


Osvaldo Vicino e suas irmãs, em foto de 1976, clicada em seu apartamento, localizado no bairro de Moema, zona sul de São Paulo, onde demos os nossos primeiros passos. Foto de seu acervo pessoal (agradeço pela cortesia !). 

Continua...