quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Crônicas da Autobio - Fatos que Estragam Momentos Mágicos num Show de Rock - Por Luiz Domingues



Aconteceu no tempo do... (nesta crônica, menciono fatos que ocorreram-me do final dos anos oitenta, ao final dos anos noventa, portanto num período entre o meu tempo com A Chave / The Key, até a minha saída do Pitbulls on Crack)


Ali pela metade dos anos oitenta, é que houve uma aceleração mais visível do processo iniciado timidamente nos anos sessenta (com o avançar gradual pela década de setenta), em prol de tornar o Brasil um país preparado para entrar no circuito mundial de turnês dos grandes e médios artistas internacionais. E nessa onda de profissionalismo que enfim começou neste país, muitos artistas do Rock das décadas de sessenta e setenta, pejorativamente chamados como “dinossauros”, numa nítida intenção deliberada em estigmatizá-los como “velhos & decadentes”, vieram em sequência, dali até o início dos anos noventa e independente da fase em que viviam, envelhecidos ou não, fãs tupiniquins que não tiveram a oportunidade de assisti-los em seu auge criativo, não furtaram-se diante de tais oportunidades e lotaram os espaços por onde tais veteranos astros apresentaram-se em São Paulo; Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras. Foi o meu caso, igualmente, assisti a vários shows de artistas internacionais que gostava e acompanhava de longa data, a relevar se estavam velhos e sem o élan de seu auge de carreira, tampouco com seu vigor artístico renovado, pois o importante ali era o fator sentimental em tirar um tempo perdido e ver o artista admirado em ação. Mas o que não imagina-se numa circunstância dessas, é que aquele momento mágico da emoção ao assistir um artista que muito admiramos e fez parte de nossa formação musical, pode ser atrapalhado da maneira mais torpe possível.

Em minhas lembranças, recordo-me por exemplo da primeira vez que assisti um show do Jethro Tull, em 1988. Não era nem de longe o velho Tull de seus momentos gloriosos vividos na década de setenta, porém claro que ainda em boa forma e com um "line-up" consistente etc e tal. Que maravilha ver o Ian Anderson mesmo já na sua meia idade, em plena ação, a empreender sua performance toda teatralizada, tocar sua flauta divinamente; cantar e movimentar-se pelo palco com ótimo preparo físico; Martin Barre ao seu lado a tocar sua guitarra “classuda” e o bom Dave Pegg a ocupar o baixo com bastante dignidade, ao executar as ótimas linhas criadas por seus predecessores, Glenn Cornick; Jeffrey Hammond-Hammond e o excepcional, John Glascock (gosto dos quatro, devo dizer, mas reconheço que Glascock fora o melhor). Tudo muito digno, repertório recheado com clássicos da discografia setentista da banda e sendo sua primeira e tardia passagem pelo Brasil, claro que caprichariam no set list, a privilegiar o repertório mais esperado pelos seus fãs. Até um medley de “Thick as a Brick”, um disco seminal e temático, em ritmo de Ópera-Rock, portanto difícil para separar os seus trechos da suíte como músicas em execuções individuais, ocorreu, e levou o público ao delírio, mas aí, o imponderável aconteceu...

A hora mais esperada, o clássico dos clássicos do repertório do velho Tull prenunciou-se assim que Martin Barre tocou as primeiras notas na sua guitarra. O Riff mais famoso, capaz de provocar o frenesi mais desejado, trinta e tantos anos ouvindo o LP homônimo dessa canção; ao ver fotos e vídeos da banda ao vivo e sonhar em ter a sorte que os europeus; japoneses; australianos e norteamericanos tiveram à sua disposição o tempo todo, enquanto nós, pobres terceiro mundistas latinoamericanos ficávamos só no sonho... o glorioso Riff de “Aqualung” soou em São Paulo ! Todavia, mal começava a mergulhar nessa euforia e um imbecil, completamente alcoolizado, apareceu do “nada” e aos berros, gritava : -“toca Aqualung” e veio a apoiar-se sobre as pessoas à minha volta. Não parou de gritar e não entendia enquanto alguns tentaram explicar-lhe que a banda executava justamente tal canção, mas fora de si, só berrava e despencava sobre as pessoas, sem coordenação motora alguma, graças ao seu estado etílico avançado. Estava estragado o momento de magia, o ébrio não parou de gritar e mesmo expulso pelas pessoas, ainda ouvia-se sua voz tresloucada durante os momentos posteriores do espetáculo, a pedir “Aqualung”, alucinadamente em outros cantos da casa de espetáculos.

Parecia um sonho, mas eu assistiria um Beatle em ação. Paul McCartney no palco do Maracanã, com quase 180 mil pessoas presentes, inveterados beatlemaníacos ávidos por ver o mito em ação pela primeira vez no Brasil. Mas o clima ali, apesar de haver gente bem informada, não parecia de um concerto de Rock na acepção da palavra, mas o de um baile suburbano brega da pior espécie. Uma lastimável sessão de “lambada”, o ritmo popularesco que fazia sucesso nas novelas da Rede Globo na ocasião, foi o som torturante como som ambiente ao estilo “muzak / lounge ”, no pré show, e sob um volume ensurdecedor, impossível de ser ignorado, tal qual uma dor de dente. Evidentemente que esqueceram-se de avisar os organizadores do show que não era a escolha mais adequada disparar tal som ambiente normalmente usado nos alto falantes durante o intervalo dos jogos de futebol, mas enfim... 

No mesmo ano, o camaleão do Rock veio com sua nova turnê, “Sound and Vision”, numa proposta dos sonhos para quem nunca o vira antes : uma retrospectiva geral de sua carreira, a tocar músicas de todos os discos, algumas que não executava há anos, décadas, até. Incrível, finalmente vou assistir David Bowie, e com a cabeça nos discos e vídeos dos Spiders From Mars que apreciei desde sempre, entro no estádio pronto para embarcar nessa emoção, que eu sabia, seria de “estação em estação”, numa viagem de trem ao infinito. Logo na abertura do show do Bowie, a reação da plateia mostrou-se gelada. Os Titãs com seus hits oitentistas tinham feito o estádio Palestra Itália, do Palmeiras, cantar e vibrar, mas agora, era nítido que a imensa maioria estava ali pelo “oba oba” e não conhecia a carreira do Bowie além da superficialidade de algumas poucas músicas mais modernas. Mega clássicos de seu repertório setentista, tais como “Space Oddity”; “Jean Genie” “Life on Mars” e “Suffragette City” comendo soltas e ninguém esboçava conhecê-las o suficiente para um aplauso pálido que fosse. Isso no entanto não era problema meu, todavia mero reflexo de estarmos em 1990, e tal geração não ter conexão alguma com o Rock, coisa a lastimar-se, mas sendo inevitável. Contudo, o pior mesmo veio da parte de um casal que estava sentado bem na minha frente. Mesmo a ocupar a arquibancada numerada, sentados em cadeiras teoricamente mais confortáveis, assim que apagaram-se as luzes de serviço e o show começou, eles levantaram-se e colocaram-se a namorar, ignorando o show e os pedidos para que sentassem-se, pois é claro que atrapalhavam à todos ali naquele raio de visão. E chegou num ponto onde as pessoas começaram a tomar atitudes mais extremas, como arremessar objetos, ou seja, mesmo tendo pago um ingresso caro, além de não ver o show com a visão a que tinha direito e ter que aguentar a atitude de escárnio da parte do casal que deveria ter ido ao motel naquela noite, visto que estavam nitidamente desinteressados da exibição do Bowie, ainda corri risco de machucar-me com os detritos que ali visavam acertá-los. E assim, mesmo pagando caro, tive que abrir mão de minha cadeira numerada e assistir o restante do show em pé e sob um ângulo de visão inadequado, fora ficar ouvindo comentários da parte de incautos ao meu redor, a exprimir sua opinião pouco embasada sobre Bowie ser “chato”... ou seja, foi o meu “Rock’n Roll Suicide” ali, ou, "This ain’t Rock”n Roll, this is genocide"...

Poucos meses depois, eis que outro artista setentista da mesma envergadura anuncia shows na terra dos tupiniquins. Deep Purple a respirar o mesmo ar que nós, e lá vão os fãs terceiro-mundistas sequiosos por vê-los em ação, cônscios de que eram outros tempos e aquela energia de uma “bola de fogo a queimar, feita no Japão e na Europa”, não era a mesma. Paciência, veríamos quatro dos cinco componentes mais clássicos da banda em ação. Ginásio do Ibirapuera lotado e um bando de vagabundos mobiliza-se para pular o cerco de um setor mais barato a fim de tentar chegar à pista, mais cara e da qual não tinham direito em ocupar. Nessa tentativa em burlar a atenção dos seguranças do evento, param bem na minha frente, a aguardar uma oportunidade para empreender tal ato ilícito. O show comendo solto, Ritchie Blackmore a jogar sua guitarra Fender Stratocaster para o alto; Jon Lord ainda com saúde para tal, digladiando-se com o órgão Hammond, e aqueles imbecis ali em pé, a obscurecer a nossa visão... eis que educadamente, apesar de que não mereciam ser tratados dessa forma, alguém pede-lhes para ao menos manterem-se agachados, pois estavam acintosamente atrapalhando-nos. Mas a reação foi imediata e típica de todo mau caráter em potencial, que não suporta ser advertido, independentemente das coisas erradas que esteja a fazer, mas "ofende-se" muito quando chamado à atenção...  e aí, esboçaram partir para as vias de fato. Por sorte, a nossa turma ali era bem grande e quando o “tempo quase fechou”, ao notarem que muitos amigos já levantaram-se para intervir, os safados saíram em debandada. Pois é... "smoke on the water, and fire in the sky"...

No ano seguinte, um fato que não chegou a incomodar-me diretamente, mas levou-me a uma reflexão. Show do Black Sabbath no estádio de atletismo do Ibirapuera. Sento-me em minha cadeira e alguns metros abaixo, vejo um garoto novo, prostrado e nitidamente embriagado. Passado o show, vejo a deprimente cena de seus amigos a tentar reanimá-lo, com um tipo de diálogo unilateral pois o rapazinho certamente não estava a entender nada : -“ fulano, acorda, o show acabou, temos que ir embora”. Bem, esse pagou caro, "apagou", literalmente a não ver nada e certamente ficou ali... num “Hole in the Sky”, digamos assim...  

Um ano depois, 1993, Paul McCartney voltou ao Brasil e desta feita com show em São Paulo. Na fila do estádio do Pacaembu, eis que vejo uma cena deprimente. Isso não teve nada a ver com o show em si (que foi ótimo, bem melhor do que o do Maracanã, no Rio de Janeiro, três anos antes), mas tratou de estragá-lo, ao menos na minha percepção pessoal, pois ouço duas mulheres a comentar com um tom de desprezo, sobre uma outra moça, com baixa estatura à frente, alguns metros distante delas e de onde eu estava também : -“ o que essa "anãzinha" está fazendo aqui ? Credo, não deviam permitir”... caramba, a pergunta na verdade deveria ser outra, pois não era possível que essas duas senhoritas, com esse tipo de preconceito odioso, estivessem ali para assistir o show de um artista que escrevera uma linha de pensamento bem diferente, anos antes, numa de suas canções : “And in the End, the Love You Take, is equal to the Love You Make” ("e no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você criou"). Precisa explicação ?

Mais magia interrompida : show dos Rolling Stones em 1995, no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Não acredito que vou ver Mick Jagger engatinhar pelo palco com Keith Richards a tocar o Riff de “Midnight Rambler”, que momento mágico, histórico e seminal... mas a completa dispersão de um público de estádio de futebol, lotado por fãs de ocasião que nem faziam ideia do que isso representava para as tradições dessa mega banda, ícone de um mega Rock que não existia mais, chegou a ser constrangedora. E no mesmo dia, com a chuva torrencial que ameaçava chegar (e de fato veio, em forma de dilúvio), um amigo meu que também era um entusiasta da contracultura dos anos sessenta, não teve dúvida, ao achar estar em meio a pessoas igualmente "antenadas" nessas tradições perdidas no tempo, começou a bradar em plenos pulmões : -“No Rain, No Rain, No Rain”... mas ali, em janeiro de 1995, poucos entenderam sua intenção e o silêncio constrangedor em contraste com sua ode aos anos sessenta, deu a medida exata de que os laços estavam rompidos. Ninguém ali havia assistido o documentário sobre o Festival de Woodstock, e se o assistiu, não empolgou-se ao ponto de adotar tais ideais de vida, e por consequência, esse amigo frustrou-se em gritar sozinho. E talvez pela falta de energia maior desse mantra de voz isolada, São Pedro ignorou completamente o pálido clamor e mandou uma tempestade forte sobre nós. Bem, ele também ignorou o pedido dos hippies em 1969, é bem verdade...


No mesmo ano de 1995, lá estava eu com amigos na pista do estádio de atletismo do Ibirapuera, com a perspectiva de assistir o Elton John. De sua banda incrível dos anos setenta só não haveria a presença do ótimo baixista, Dee Murray, falecido há tempos, infelizmente (e do qual sou grande fã), portanto, apesar dessa ausência forçada, a expectativa era boa. Infelizmente, revelou-se outro show morno por parte do público incauto que não conhecia seu repertório mais clássico, e certamente foi decepcionante ver o gelo das pessoas enquanto o Reginaldo, digo, Elton, destruía o piano ao tocar “Honky Cat” e Take me to the Pilot”, por exemplo, e num contraste, a audiência pouco informada sobre a sua carreira,  a vibrar ao som da trilha do desenho animado, “Rei Leão”, uma das poucas canções que conseguiram identificar e apreciar, mas isso era esperado, infelizmente. Todavia, o pior mesmo veio quando na iminência de um momento sublime do espetáculo, eu iria finalmente viajar no slide tocado pelo guitarrista Davey Johnstone, após trinta anos de espera... “Rocket Man” alçando voo, we’ve have a lift off, só que não… pois outra briga esdrúxula estoura perto de minha presença. Um energúmeno passa a berrar com um outro sujeito que era bem mais alto e estava à sua frente. Acontece que ali era a pista e diferentemente de um teatro ou cinema onde o bom senso faz com que pessoas mais altas procurem lugares mais atrás para não atrapalhar a visão dos mais baixos, ali, era território livre e portanto, os incomodados que mudassem-se... mas o embate verbal entre os dois tratou de arruinar o “Rocket Man” de todos ali no mesmo quadrante, incluso eu...  

Outra ocorrência desagradável deu-se quando o “Steppenwolf” veio a Pindorama, na metade dos anos noventa. Incrível, não dava nem para acreditar que eu assistiria, John Kay, com aqueles óculos escuros, a cantar “The Pusher”; “Magic Carpet Ride” e claro, “Born to Be Wild”. Aquela lembrança a retumbar na minha mente, eu e meus amigos freaks nos anos setenta, a assistir pela enésima vez o filme, “Easy Rider”, no Cine Bijou, da Praça Roosevelt em São Paulo, e o som do velho Lobo da Estepe a dizer tudo ali...
Pois bem na hora mais esperada, lá estou eu no calor da emoção gerada, quando os primeiros acordes de “Born to Be Wild” soaram nessa casa de espetáculos do bairro de Moema, na zona sul de São Paulo. A sensação era : agora voarei no meu carpete mágico junto com John Kay, que “barato” incrível, voltei para os anos sessenta... contudo, subitamente tudo foi por água baixo, quando uma briga estoura numa mesa próxima. Socos; chutes; garrafadas & palavrões a competir com o Steppenwolf no palco... e foi-se pelo ralo a minha conexão com a vibração de 1969...

Dois anos depois e outra banda sessentista que muito aprecio, veio e com sua formação clássica. Alvin Lee & Cia., todos “coroas”, mas em boa forma, a tocar bem. Inacreditável assistir o “Ten Years After”, ali na segunda metade dos anos noventa. Nesse dia, resolvi radicalizar e fui ao show paramentado. Tirei do guarda roupa uma calça boca de sino que usava como figurino de meus próprios shows e lá fui eu. E não é que chamei a atenção em demasia ? Via as pessoas a comentar na fila e cutucando-se para apontar-me, como se eu fosse um alienígena, quando na verdade, deduzia-se que ali só haveria apreciadores do velho Ten Years After, mas tal reação causou-me estupefação, pois eu pensei que estava num Concerto de Rock à moda antiga e não no bingo da quermesse da Igreja... fazer o quê ? “I’m Going Home”... by helicopter...


Ao falar sobre incômodos, além disso tudo que arrolei acima, acrescento alguns itens que obedecem a um "padrão" em qualquer show, independente de qual artista for apresentar-se : o inferno para estacionar o carro (e a incrível exploração monetária, com cobrança de tarifas astronômicas em estacionamentos das redondezas do local da apresentação); a revista sempre truculenta por parte da polícia;  punguistas sempre a postos para assaltar; golpistas também aos montes com abordagens as mais inusitadas; bolinadores da mulher alheia (mais “mão boba” e assédio descarado, portanto, pense mil vezes antes de levar a esposa / namorada ou irmã para um show de estádio); desorganização e desrespeito da parte de tudo e de todos, nem vou mencionar banheiros insalubres (creio que não vale a pena trazer tal lembrança à baila), e os inconvenientes vendedores de bebidas; lanches; sorvetes & afins. Você ali a ver Page & Plant tocar “Kashmir”, com a lágrima a escorregar pelo rosto, e aí um idiota pisa no seu pé e berra na sua orelha : “sovete”... assim mesmo, sem pronunciar a letra “R”, para ficar ainda mais irritante a experiência traumática em quebrar-se a magia em que você estava, mergulhado em meio as brumas de Avalon... e lá foi-se aquele momento transcendental em que tanto sonhara, desde que ouvira pela primeira vez o LP "Physical Graffiti", do Led Zeppelin, no longínquo ano de 1975...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Personalidade - Por Telma Jábali Barretto

Num tempo de tantas contradições, em meio à contínua busca de harmonia, convivemos e vivemos nesse equilibrar, nem sempre tão facilmente, onde, mais que isso, constatamos, de quanta polarização somos feitos. E porque trouxemos esse tema? Nunca se falou tanto em empoderamento e nunca se questionou, criticou tanto o ego?!... Não é fato? Como é possível tanto estímulo para empoderar, paralelo, contrário ao investimento deliberado de massacrar, trucidar até, finalmente, matar o ego?! Como é possível, então...
Sempre entendemos como sendo necessário chegarmos a ter um bem definido ego, caracterizando conquista de um patamar, tamanho, maturidade, propiciador daquela independência, autonomia de se poder ser quem somos, tão importante e fato que precede ao início do viver o próprio dharma, missão! Só esse que caminhou até aí terá o que entregar, oferecer ao Plano Maior ficando a serviço de também uma Causa Maior...com a confiança, ainda que, ao começo titubeante, que, agora, e só então, possa contribuir.


Antes de aí estar, o tal empoderamento fez-se base, estrutura de uma longa jornada... No crucial momento que essa complexa e persistente caminhada se conclui, estando de posse, incorporados num determinado personagem: personalidade, ali definido por um CIC e RG! Quantas personalidades, então, teremos experimentado até esse desiderato...?!... Abençoado esforço e graça se encontram  nesse que é o motivo de nosso existir que, nesse exato acontecimento, aquela personalidade insignificante...?!...terá eternizado!!! Começa também aí um protagonismo...
Como não ressignificar conceitos anteriores arraigados, sobre os propalados temas que só chegam, agora, a destaque, como sinal do tamanho que alcançamos como seres humanos que começam a ter consciência de si mesmos, num novo responsabilizar e assumir-se como partícipes do contexto amplo de que somos integrantes, numa diferente forma de pertencimento. Tudo isso muito, muito além de um simples firma-se de criança birrenta que busca ser vista, ouvida... e, respeitada...
Deixamos, aqui,  nossa reflexão no intuito que pensemos sobre, procurando trazer outra luz/sombra, honrando essa grandiosa linha de chegada, onde só aí poderemos ser autênticos representantes, reflexos do divino em nós, únicos, em que cada qual, em seu intransferível papel de contribuição integrará, com sua parcela, no encaixe perfeito encontrado, então, no imenso quebra-cabeças, sinfonia cósmica oferecendo-se para esse gigantesco pulsar da Vida Maior !
Assim viemos sendo, somos e seremos...eternamente, além tempo e espaço !!! 

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Sua formação acadêmica é como engenheira civil, mas é também uma experiente astróloga, consultora para harmonização de ambientes e instrutora de Shudda Raja Yoga. Nesta reflexão, analisa a questão do Ego, sob outras facetas.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Crônicas da Autobio - O Ingênuo Aspirante a Freak / Junkie - Por Luiz Domingues



               Aconteceu no tempo do Boca do Céu, em 1977...


Não recordo-me de seu nome verdadeiro e talvez eu seja lembrado disso caso alguém que o tenha conhecido também naquela época, aborde-me ao ler esta crônica, a fim de colaborar com tal informação, mas por ora, digo que seu apelido era “Qua-Qua”, e assim era conhecido no bairro. Tratava-se de um rapaz ainda vivendo o fim de sua adolescência e que notabilizara-se por um aspecto negativo, a grosso modo, embora fosse um bom menino, oriundo de uma família de classe média que deu-lhe tudo, mas por um deslize seu pessoal, colocou tudo a perder, infelizmente.

Foi o seguinte : tal rapaz, assim como muitos naquelas duas décadas (1960 e 1970), foi fortemente impactado pelo ideal contracultural, quando este ganhara força a popularizar-se e adquiriu contorno de movimento social / comportamental. Muitos, no entanto, inebriaram-se por tal ideal, mas enxergando-o pelo viés do hedonismo puro e simples. A sensação de liberdade total para buscar o prazer através das drogas alucinógenas, como mera recreação, e o sexo livre, formou dois pilares irresistíveis e tudo amalgamando-se à arte em geral, música e Rock, sobretudo, claro que produziu-se um apelo fortíssimo e quem não tinha lá uma estrutura psíquica muito firme e não raciocinou a contracultura sob aspectos mais sérios, quiçá com visão filosófica e sob ditames espiritualizados, ou no mínimo, sob uma visão macro da sócio / política, “dançou”, usando uma gíria da época a designar quem fracassara, em linhas gerais.

E foi o que ocorreu com esse rapaz, que desde a tenra idade encantara-se com toda essa movimentação contracultural e tendo o Rock como carro chefe. Ele era articulado, em contraste com sua ingenuidade por outros aspectos, pois tinha estudado desde pequeno em bons colégios, portanto tinha grau de instrução, cultura e era bastante inteligente, mas pelo estilo de sua criação familiar e nicho social em que nascera, apesar de estar mergulhado nos ideais, manteve seu padrão pessoal de aparência, bem comportado, no sentido do que a sociedade esperava de todos, a evitar roupas usadas por hippies; freaks & Rockers e mantinha um corte de cabelo tradicional, bem curto, parecendo um bom menino matriculado num colégio católico e que costumava acompanhar a vovó nas missas dominicais. Sua perspicácia era grande, pois entre amigos, vangloriava-se dessa sua predisposição em manter um visual “careta”, mesmo tendo vontade recôndita em parecer-se um “freak”, pois isso dava-lhe a camuflagem necessária para não ser incomodado pela sua família e sobretudo, evitava-lhe os inevitáveis conflitos com uma polícia truculenta e arbitrária que atazanava a vida de cabeludos pelas ruas, mediante blitz e prisões, numa época em que a ditadura estava no seu auge e tal perseguição era inevitável.

Então, “Qua-Qua” achando-se um genuíno “freak”, mas devidamente disfarçado dentro de seu quarto, protegido dos perigos inerentes que tal opção de vida poder-lhe-ia proporcionar, mergulhou de cabeça em seus discos e livros importados que consumia avidamente, e até aí, tudo bem, sorte dele que tinha uma família que ofertava-lhe tudo o que pedia e nessa altura, sua coleção de discos era gigantesca, ao ponto de chamar a atenção dos freaks do bairro, que reconheciam seu bom gosto musical. E também pelos livros, muitos a respeito da contracultura e do Rock; com biografias; compêndios; HQ com motivações freaks (Crumb, sobretudo); Photo Books sobre turnês de bandas de Rock internacionais, etc. Mas fora isso tudo, veio a reboque a sua pior escolha, pois inebriado por tais ideais, mergulhou de cabeça no consumo das drogas pesadas, no afã de viver a “experiência”, e aí, foi destruindo a sua vida, paulatinamente. Os primeiros sinais de sua decadência vieram quando os pais começaram a desconfiar de que o dinheiro reivindicado por ele para comprar mais discos e livros, não estava a reverter em aumento da coleção, visivelmente falando, ao analisar-se a sua estante. Depois, o comportamento começou a mudar mais acintosamente, com dificuldade de aprendizado na escola, apatia no cotidiano e momentos de confusão mental, ou seja, o dito “não falar coisa-com-coisa”.

Paralelamente, a família observou que ele passara a adotar a rotina em sair com pilhas de discos debaixo do braço e voltar para a casa sem os mesmos. Indagado, alegava que emprestava-os aos amigos, mas a sua vasta coleção diminuía a olho nu e somados aos outros sinais, claro que finalmente a família caiu na realidade e viu que o filho estava a vender seus discos importados a “preço de banana”, para poder saldar dívidas contraídas com traficantes de drogas.
Veio a seguir uma fase com internações e consultas a psicólogos, mas o estrago maior estava feito e o inevitável ocorreu. Demorei meses para saber, até que perguntei para um amigo que conhecia-o igualmente, sobre seu paradeiro, pois estranhei a sua ausência, visto que passava em minha casa ao menos duas vezes por semana para oferecer-me discos da sua coleção a preços reduzidos ao extremo. Pois é, vencido pelos excessos, “Qua-Qua” entrou para a estatística dos freaks que perderam a vida, vinculados ao vício contraído pelo uso e abuso das drogas pesadas. 


Pensando bem, creio que efeitos químicos nocivos das drogas a parte, o que realmente ceifou a vida do “Qua-Qua”, foi sua falsa compreensão da contracultura e assim ao ter sido vítima de sua própria ingenuidade, mergulhou sem critério e sem respaldo algum numa aventura alucinógena, sem eira nem beira, talvez a pensar que encontraria respostas ao adentrar um recinto extra-dimensional, acessado por uma possível porta da percepção que abrir-se-ia através das drogas, motivado que ficara em buscar a experiência do dito, “open mind”. Mas o que encontrou na verdade, foi o oposto, ao abraçar a morte.